terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

A casa da prima Bela

Há décadas atrás, este lugar era só fábricas e terrenos de cultivo. A pouco e pouco, homens de origem pobre e vontades de rico começaram a comprar, por meia dúzia de tostões, as terras aos velhos cansados. No seu lugar construíram edifícios deformados e sem cor que taparam o rio da vista das janelas mais altas. Hoje os prédios são mais do que as casas sozinhas de que a minha avó sempre gostou, e entre eles destoam casebres desarranjados de outro século. Num desses casebres morava a prima Bela e o seu marido, o Tó Rato. O Tó Rato tinha uma barba branca rente, rija e espetada, os poucos dentes que tinha eram amarelos e apodrecidos, e em seu torno pairava sempre um odor forte a álcool. Escanzelado e gasto morreu. Para lá ficou a prima Bela, que desde então parecia circunscrever a sua existência à janela da frente, como um fantasma enclausurado. Era baixa, redondinha e tinha os olhos azuis. Fazia lembrar a minha bisavó, que vinha praticamente do mesmo lar. À frente da sua janela dianteira, havia uma rua íngreme onde os carros se atrapalhavam; ao lado e até à linha de comboio foram construídos prédios luxuosos e moradias. Há meia dúzia de semanas, descia a rua enquanto olhava para a direita, com a infantil intenção de lhe devolver o aceno do costume. Mas no lugar da casa, vi apenas pedregulhos no chão de terra batida e um trator que com as garras ia limpando o que daquela vida sobrou. Primeiro cortaram o eucalipto que ficava no centro do largo e que foi durante décadas ponto de encontro; depois expulsaram velhos e destruíram as suas casas. Pergunto-me o que se seguirá e continuo o caminho com pressa. Não quero que a resposta me apanhe.