domingo, 8 de fevereiro de 2015

Avenida da Liberdade

Descendo a pé a avenida, uma mulher suspende a marcha perante um carro. Só percebo que pede esmola pela mão estendida. Balbuciou qualquer coisa ao condutor que, protegido no seu cubículo metálico, fingiu não dar por ela; resignada e sem enrijecer modos ou expressões, abordou a rapariga que ia uns passos à minha frente. Com a mesma elegância e com a mesma miséria lhe estendeu a palma da mão. A única diferença é que desta vez lhe consegui ver os olhos, uns olhos que pediam mais esmola que as mãos abertas. E a rapariga estacou, ficou sem jeito, foi à mala e, com uma expressão de sofrimento e de culpa, como se fosse, ao mesmo tempo, vítima e carrasco, estendeu-lhe uma nota de cinco, fez-lhe festinhas nos braços e desejou-lhe muita sorte. A mulher chorou, pediu que deus lhe desse tudo de bom e foi embora, com o mesmo vagar miserável. E a rapariga continuou, olhando para trás de passo a passo, a subir a avenida da liberdade.