quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Cair

Criada por uma mãe distante e inábil nos afetos, Sofia foi crescendo sem conhecer as regras para declarar o seu amor. Ao fim de várias relações falhadas por outros motivos, conheceu o homem com quem planeara assentar numa qualquer praia do norte depois de juntos terem corrido o mundo inteiro. Não sabendo mais, substituía as alcunhas especiais e outros célebres métodos pelos seus próprios meios: lia-lhe poemas, levava-lhe bolachas, deixava-o dormir toda a manhã sem incomodar, ouvia a sua música sem lhe pedir em troca que escutasse jazz, perguntava-lhe pela mãe todos os dias, e jamais se deitava sem lhe dizer o quanto gostava dele, por mais zangada que estivesse - e às vezes estava. Ele queixava-se da sua falta de ternura e ela redobrava esforços: procurava livros para ele, cantava-lhe ao ouvido, fazia piadas para ouvir a sua gargalhada, preocupava-se com sonos e agasalhos; só com o raio das alcunhas é que não se desenrascava. Um dia estacou perante a súbita e persistente rispidez dos seus modos e ele justificou: foi um ajuste; é como uma pessoa que começa a mancar depois de cair.