sábado, 14 de fevereiro de 2015

Cinco euros de pobreza

Talvez a rapariga acredite que aqueles cinco euros possam ter feito diferença. Que aqueles cinco euros possam ter sido suficientes para que a mulher sobrevivesse mais um dia. Talvez a rapariga acredite que cada dia é um mundo de possibilidades. Mas não creio que os tenha dado por estes motivos. A rapariga saberá, como todos sabemos, que a pobreza não é acidente trágico e inesperado. É condição imposta sem causa ou merecimento, sina desalinhada por natureza. Saberá que a mulher há de ter aproveitado o dinheiro para a necessidade que mais urgia no momento em que o recebeu. E que no instante em que o fez, voltou ao mesmo desamparo. A esmola é um penso rápido numa ferida profunda que incendeia por fora e infeta por dentro. Consola por breves momentos e revela-se insuficiente logo a seguir. E por isso se pede mais esmola, se dá mais esmola, se põe, à porta de supermercados, crianças belas e perfumadas a pedir arroz e massa para dar aos pobrezinhos. Damos cobertores esburacados, ofertamos roupa velha e fora de moda, ensacamos conservas e enlatados e, se nos pedirem no momento certo e no lugar certo, ainda damos as moedas que sobraram do pequeno-almoço na confeitaria habitual. E assim dormimos descansados, convencidos do nosso cerrado combate à pobreza, confortáveis com a miséria. Até que nos entre pela porta adentro sem ter a decência de se anunciar.