quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Meninas e moças

As fêmeas sempre foram a perdição do Sr. Antunes e todos o sabem. A sua importante e séria carreira profissional terminou antecipada e abruptamente depois de se descobrir o que andava a fazer com a mulher de um pescador sem delicadezas que ameaçou esmagá-lo - e que arranjou uma povoação indignada que o ajudasse nessa tarefa; todos na terra sabem da vergonha que foi quando a vizinha o injuriou em praça pública por ter descoberto que era espreitada, com direito a binóculos e tudo, sempre que lavava e espremia no tanque do pátio; às menininhas dava beijinhos e mordidelas nas bochechas, cheio de uma ternura que não aguentava guardar para si. Só soube destas coisas quando o amadurecimento do meu corpo redobrou as cautelas de quem me queria bem: tu não lhe dês trela que ele não pode ver um rabo de saias. Uns justificam-no falando da mulher, senil, acamada e inútil na disciplina do prazer; outros dizem que não, que nem jovem se bastava e gastava numa só mulher; outros ainda, invertendo a causa e a consequência, afirmam que a mulher só perdeu o tino pelas infâmias a que sempre foi submetida. Já é dele. O recato substituiu a urgência, depois de humilhado e insultado à porta de casa e à frente de todos por ter dado um rebuçado a uma menina que, ainda antes de chegar a idade púbere, já se passeava com corpo de rapariga fresca. Dizem que chorou de vergonha e revolta. Que mulher feita, sim, o fazia perder-se e arruinar-se, mas jamais uma catraia! Uns acorrem em sua defesa, não, não acredito, de crianças nunca se constou, foi sem maldade, é a maneira dele. Outros compreendem o escândalo que os pais da miúda fizeram. Ele deixou de cessar o passo para pedir conversa a meninas e mulheres, agora bom dia, minha linda, e anda sempre. Não sei há quantos anos tudo isto foi, que o Sr. Antunes já não está longe da centúria e nunca lhe vi a mulher. Mas sempre que subo a rua, lenta e preguiçosa, vejo-o sentado na varanda repleta de pássaros e amores-perfeitos. E quando a mulher, talvez mais atinada do que se julga, sem que eu consiga enxergar-lhe a figura, diz que se mata, ele devolve, com a paciência e a ternura de quem fala a uma criança:
- Está bem, mas agora não, minha linda. Mais logo, minha linda.