quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Miúdos e graúdos

Observar o comportamento de uma criança é como observar o de um adulto, com a diferença de que as crianças disfarçam mal. Imitando o que vê e inventado no resto, à mais pequena contrariedade, a criança desata a barafustar como se tivesse o diabo no corpo. Grita com ódio, atira com fúria e desespero tudo o que estiver por perto, lança-se no chão arrebatado pelo cansaço. Passados dez minutos, por vezes nem tanto, apresenta-se diante de mim com um sorriso envergonhado de quem pede permissão para entrar. Ignoro-o e continuo a ler. Começa a cabriolar em meu torno, prestando-se a todas as palhaçadas, sempre olhando-me de esguelha na esperança de que eu me renda aos seus encantos e graças. Perante o meu silêncio, redobra os esforços até sentir que aceito o perdão que não me pede. A redenção é, no entanto, sol de pouca dura, e estende-se somente até à contrariedade seguinte, quando tudo recomeça. Mas às crianças perdoamos sempre. Quanto mais não seja porque nos esquecemos de que um dia serão os adultos que repudiamos.