terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O eucalipto

O eucalipto que ficava no mesmo largo que a casa da prima Bela faz parte da história de todos os que aqui nasceram ou foram criados. Antes dos prédios rebentarem por todo o lado como cogumelos venenosos, o eucalipto era só um dos adornos da mata onde os meus pais, avós, bisavós e por aí adiante andaram de bicicleta e jogaram à apanhada. Quando deixou de ser adorno ou brinquedo, passou a ser ponto de encontro. Era o eucalipto. Assim mesmo, com o artigo definido a impô-lo como único e a conferir-lhe a grandiosidade merecida. Podiam não saber onde era a nova confeitaria, a empresa de seguros, a casa do presidente da junta, mas
- É à beira do eucalipto.
e fazia-se luz. Eu própria, durante a adolescência, dei o eucalipto como referência a um rapaz que ali me esperou para o primeiro beijo. Além disto, todos mediam a força de uma tempestade pelo número de ramos quebrados e espalhados pelo chão.
Um dia a vila entrou em alvoroço. Alguém queria cortar o eucalipto, havia comunicados espalhados por todas as ruas, com datas e razões: as folhas persistentes do eucalipto enfiavam-se nas caleiras dos senhores das moradias e era uma dor de cabeça. Nessa semana o rancor antigo de classe veio ao de cima misturado com o escárnio e o desprezo:
- Incomoda os senhores doutores ali das moradias da frente. Cuidado com eles, que isto é gente fina.
- Se estão mal que vão eles com o caralho, que se ponham a andar, que o eucalipto já cá estava antes de eles virem para aqui.
- Se tem algum jeito, irem agora cortar o eucalipto, que já cá está sei lá há quantos anos...
- Era eu catraia e já brincava aqui à beira, vão agora cortar... Filhos das putas.
E o rancor, o escárnio e o desprezo tomaram forma e em poucos dias o falatório disperso se organizou. No dia previsto, os habitantes chegaram primeiro que as máquinas, e com os corpos inferiores em força e aparato protegeram a velha árvore. Os homens das máquinas retiraram-se e após esta primeira vitória houve festa e espalhou-se incentivo. No entanto, ao cabo de umas poucas semanas, não sei por que razões, as máquinas finalmente venceram perante os olhares danados e aflitos de quem marcou presença, como se para averiguar que a morte era bem executada. No fim, decoraram o que sobrou com as mesmas velas vermelhas com que enfeitamos as campas dos nossos mortos. Durante semanas se estendeu o luto. Ainda hoje, ao descer a rua íngreme:
- Não sei que me parece... descer isto e não ver o eucalipto. - e como desabafo triste: - filhos das putas...
Ainda hoje se fala do eucalipto como de um defunto recente, com a tristeza fresca e mal resolvida de quem viu um ente querido ser decapitado por injusta causa. Mas todos se consolam com anúncio da vingança:
- O que me dá gosto é saber que ele volta a crescer. Estes filhos das putas vão estar mortos e o eucalipto ainda vai cá estar. Ele volta a crescer. Eles que descansem. Ele vai voltar.