segunda-feira, 23 de março de 2015

Os dias e os meses das mulheres

Sílvia foi a última entre quase uma dezena de irmãos, por isso teve a fortuna de não viver na primeira casa, a de chão em terra batida. Quando nasceu, já o pai emigrado tinha conseguido um terreno à beira-mar para acolher a filharada. Teve uma infância mais poupada e pôde dedicar-se aos lavores e ao estudo. Mas era fraca de cabeça, e depois de muito tempo bloqueada no mesmo ano, os professores aconselharam-na a desistir. Ela tem muita força de vontade, mas não consegue. Seguiu o conselho, arranjou um ofício que a ocupasse e aos vinte e tal anos finalmente casou. Como suposto, logo a seguir veio a primeira filha. Deixou o trabalho e passou a dedicar-se inteiramente ao marido, à filha e à casa. Todos os dias de manhã acordava cedo e limpava toda a casa. Começava sempre pela casa-de-banho. Depois acordava a filha, dava-lhe um só copo de leite e meia dúzia de bolachas maria e mandava-a brincar. A seguir ia aos recados com o dinheiro que o marido lhe deixava, e na volta certificava-se sempre de ter trazido fatura e troco certo para que o chefe de família verificasse a honestidade da esposa e dos comerciantes. No final da manhã, começava a fazer o almoço. Sopa à frente, conduto e peça de fruta. O marido chegava por volta do meio-dia, engolia a refeição e de cada vez que ela lhe perguntava está bom, António?, ele respondia secamente e sem desviar os olhos do prato: come-se. A seguir arrumava a cozinha vagarosamente. Pelas três da tarde, dava o lanche à filha: um só copo de leite e acompanhamento à escolha - meia dúzia de bolachas maria ou um só pão com manteiga. Quando a louça do lanche estivesse lavada e no devido lugar, começava a hora de ir preparando com mimo o jantar. Antes das oito estava pronto e a fumegar nas panelas e nos tachos. O homem comia. Come-se. A cozinha era arrumada, a filha lavada e deitada, e o amanhã igual estava à espera. Ainda antes dos dez anos, a filha começou a ser educada para a boa execução das lides domésticas. E como gostava Sílvia de se gabar disso! Ficava tão orgulhosa por ver a filha aspirar como muitos pais ficam com uma boa nota num teste. Tinha grandes ambições para a filha: seria uma dona de casa exemplar, uma esposa de fazer cobiça e uma mãe extremosa. Gabava as moelas que a filha cozinhava, os bordados que fazia, o aprumo com que limpava os rodapés! E quando não estavam nisso, estavam na Igreja. Um dia, por acidente, Sílvia engravidou da segunda criança - que deu à luz por obrigações católicas e não por amor materno. A gravidez indesejada foi causa de turbilhões inesperados, de ataques de pânico que a puseram no hospital e, sobretudo, de uma mágoa que ficaria para sempre por resolver. A bebé, passando de um corpo perturbado para um mundo doente, nasceu com um eterno desconsolo que não conseguia calar, chorando e berrando dia e noite. Sílvia foi exasperando, foi deprimindo, descarregando nas filhas mas jamais no esposo. Pode ter perdido muito, mas jamais o respeito ao homem que as sustentava. Os anos foram passando, a mais velha foi-se fazendo galdéria ingénua, desesperadamente à procura de lugar onde pudesse respirar; a bebé foi-se transformando numa criança insuportável e histérica. Quando o cabelo da mais pequena começou a cair, o transtorno foi aumentando face ao perigo. Redobraram cuidados e obsessões. Sílvia tentou matar-se. Certo dia partiram, não sei muito bem para onde. António continua a amealhar para poder deixar fortuna quando morrer; Sílvia só encontra consolo na Bíblia e nas drogas prescritas; as miúdas vão-se estragando e corrompendo sem que os pais enxerguem. Haja quem lhes ofereça flores à falta de melhor.