segunda-feira, 2 de março de 2015

Também do gosto

Isto fez-me lembrar de um jovem que em tempos conheci ou julguei conhecer. Chegou à Universidade de cabelo despenteado, sapatilhas gastas e t-shirt dos Beatles. Mais adepto de banhos noturnos que matinais, sentia-se-lhe, por vezes e se muito perto, o cheiro pesado de corpo por lavar. Filho de pais abastados e cultíssimos, antes dos vinte já tinha corrido meia Europa. Também Portugal, sua história, traços e monumentos, lhe eram familiares. Por não precisar, nunca tinha trabalhado - não contando com atividades esporádicas às quais se entregou por gosto e pelas quais foi simbolicamente remunerado. Era um rapaz educado, um verdadeiro cavalheiro, desses que se dizem extintos. Era ainda bom de conversar, companhia agradável para sessões de cinema, conhecedor do mundo e das artes. Superiormente inteligente e com a vantagem de ter, sem esforço próprio, os meios para isso, depressa subiu a escala de classificações até ao topo. Com o sucesso se vê o avesso das máscaras e com ele não foi exceção: um orgulhozinho triste começou a tomar conta dos seus jeitos e pensamentos, ria da ignorância alheia com uma tacanhez imperdoável e, por fim, começou a cavar um abismo intransponível entre si e os que lhe mereciam a excelência, e os outros. Às vezes íamos a conferências e dava-se o caso de serem aborrecidíssimas, daquelas que fingem ser para  nós e que não passam de teatros encenados para a bajulação de quem era convidado a pisar o palco. Infelizmente, ensinavam-nos a adorar os convidados de palco. E às tiradas arrogantes, altivas e por vezes humilhantes dos oradores, ele e os seus reagiam com a arrogância dos meninos que querem fingir que já são grandes, como Dâmasos. Afinal, todas as pessoas querem fazer parte de algo especial. Não mais o ouvi a admitir que determinado artigo era básico  e enfadonho, que determinado especialista era afinal uma mente fechada, ou que aquela ou outra coisa qualquer simplesmente não condiziam com o seu gosto. Fui-me retirando de fininho, como quem escorrega da cadeira durante um jantar insuportável na esperança de escapar por baixo da mesa sem que os outros deem conta.
Há pouco tempo vi-o. Passaram poucos anos mas, a julgar pelo seu aspeto, diria que uma década. Tem o cabelo penteado para o lado num jeito revolto ensaiado, óculos pesados que enaltecem o seu ego intelectual, veste roupa igual à do avô e usa uma pasta de sôtor como é de bem usar. Surpreendeu-me o bigode descaído e solitário que lhe enfeita o lábio superior. Dir-se-ia que provinciano, não fosse estar inscrito desde há uns tempos para cá naquilo que é a ditadura da moda e do bom gosto. Tal como a t-shirt dos Beatles, de quem ele nunca foi verdadeiro fã, nem sequer nos tempos simples da sua inacabada juventude. São gostos.