segunda-feira, 2 de março de 2015

Voz e silêncio


Com os seus modos, Marlene era habilidosa a contornar a fealdade. Uma malformação na coluna que a poderia ter atirado para uma cadeira-de-rodas tinha deixado apenas um jeito estrambelhado de caminhar, de entortar e apontar para dentro os joelhos, resultando num trote disfarçado por tiques empertigados e presunçosos. Embelezava a miopia com um par de óculos que lhe dava ares de inteligência maliciosa, e os seus dentes desalinhados passavam despercebidos pela forma como puxava o lábio inferior para o lado quando queria dizer coisas importantes, lembrando princípio de trombose. A barriga que transbordava das calças perdia-se graças à atenção merecida pelos seios generosos e firmes. Em cima disto punha modos de quem se sabe sensual, e jamais descurava a indumentária. Não sabemos se Marlene se acreditava bela, mas os demais davam-lhe essa confiança.

A vaidade que tinha em si aguçava-lhe as ganas de esculpir a inteligência, e por isso estudava e empunhava o que sabia. Sabia muito, façamos-lhe a merecida honra. Talvez por ter ouvido que havia quem admirasse mulheres de pensamento crítico, Marlene criticava, criticava com persistência e orgulho. Pervertia a liberdade sexual falando de cada parceiro como se de um objeto de coleção a mostrar aos convidados. E todos eram convidados… Marlene convidava todos com quem se cruzasse a conhecê-la, e toda a canção ou curiosidade era oportunidade de discursar sobre si, sobre os seus amores, ódios e segredos. Todo o lugar era palco. Era fácil adivinhar o que gostaria que os outros dissessem sobre a sua pessoa, porque ela própria o dizia se confrontada com o frequente silêncio alheio.
Hoje encontrou-me a escrever. Desrespeitando esse momento como se desrespeita orações de devotos, desatou a contar de si e a dar respostas a perguntas que nem em pensamentos formulei. Ergui-me para atender uma chamada e ela continuou. Distraí-me com a voz que estava na outra linha mas, quando dei por mim, percebi que a sua voz rouca ainda tremia ao longe como se de uma criança com medo de não ser ouvida se tratasse. Já ouvi quem dissesse que ela antes não era assim. Ninguém sabe o que aconteceu, sabem que ela não consegue estar calada. Talvez não tenha sido ouvida pela única pessoa que lhe gritou por dentro sem consentimento. Mas disso todos sabemos que jamais se atreverá a falar.