terça-feira, 28 de abril de 2015

Falhar

Ana Maria nasceu numa aldeia, passou pela capital e hoje vive nos arredores do Porto. Tem um cargo de responsabilidade e turnos que a impedem de ter vida pessoal em condições. Não se julgue, porém, que a movem ambições profissionais: apenas arranjou o trabalho que pôde, por necessidade de sustento, e foi trepando a hierarquia por não se poder dar ao luxo de recusar dinheiro e estabilidade. No trabalho, é inteligente e cumpridora e, mais importante do que isso, é doce e bondosa. Os discípulos reúnem-se em torno dela como irmãos mais novos, que ela acarinha por não saber ser de outro jeito. Ampara todos com um amor maternal e nunca se lhe viu fúria ou falta de dignidade. Às vezes fica exausta, entre o trabalho e a vida familiar - que inclui um bebé frágil e doente. Que tens, Aninha? Estás zangada? No dia em que Ana Maria ficar zangada, todos se entregarão como culpados mesmo que não o sejam, só para lhe fazerem a merecida justiça. Não, meu anjo, só um pouco cansada. Tu estás bem? Nem os sorrisos de lamento deixam subtrair à ternura. Há dias em que desabafa: isto não faz sentido, estar aqui enquanto os meus pequenos estão em casa. Mas tem que ser, e Ana Maria cumpre. Não tem outro remédio. Expia a culpa dando em dobrado o amor que tem que conter durante tantas horas. Todos gostariam de ter para si Ana Maria. Como mãe, irmã, amiga, colega, chefe. Aqui há dias, enquanto tratávamos mecanicamente de assuntos que nunca serão tão importantes, confessou-me:
- Choro muitas vezes. Acho que estou a falhar como mãe. - Tentei consolá-la em vão, sabendo que nada do que dissesse faria diferença, ela sorriu com ternura e resignação e seguiu caminho, desdobrando-se como pôde, cumprindo rápido para ir embora. Precisas de mais alguma coisa, meu anjo?