sábado, 25 de abril de 2015

Liberdade

Passei a semana em que o Miguel nasceu fechada numa casa do Gerês, cercada por uma chuva que apareceu sem aviso e fora de tempo. Maldisse as férias falhadas quando soube da notícia por telefone. As coisas mudaram a partir daí. Aos sábados de manhã, passei a aguardar na sala de estar dele que ele e a irmã acordassem para os alimentar. Mudava-os, vestia-os, entretinha-os até que a mãe lhes voltasse de mais um dia ingrato. O tempo foi passando, ele foi crescendo, e o meu papel passou a ser o de amenizar as desavenças entre irmãos, distribuindo carinho e sermão de forma alternada. Vi-o ir para a escolinha, regressar falando do João, do Vasco, do Bruno e da Beatriz, a menina que seria de todas a mais bonita. Lia-lhe histórias nos tempos em que ele não se bastava e ajudei-o a pegar as letras umas nas outras quando a hora chegou. Pô-lo à força a cismar nas matérias que lhe iam dando nós no cérebro era coisa para o deixar fechado e casmurro, por isso inventei jogos para lhe endireitar  ortografia e lhe iluminar noções geográficas. Todos os dias, chegava a casa e esperava ouvi-lo bater à porta. À noite, acompanhava-o a casa e ficava a escutar os seus passos, escada acima, para ter a certeza de que estava entregue. Passava o serão connosco, comendo da nossa comida, aconchegando-se no mesmo calor que nos aquecia a todos.  Agora o Miguel cresceu. Já não me pede ajuda para as frações, sequer para o português, e já só aceita que o acompanhe em caso de tempestade; caso contrário, vê-lo percorrer o curto caminho até à porta de sua casa é quanto lhe basta. Aqui há dias tentei ampará-lo, eu, que pareço mingar a seu lado, e ele gentilmente se desembaraçou: não te preocupes, eu consigo. Hoje, com a voz rouca, contava-nos da violência na escola. Uma menina que foi assediada pelo porteiro, o colega a quem roubaram dinheiro, um outro que, apenas com doze anos, já vai bem adiantado nas suspensões e expulsões que nada resolveram ou resolverão.  Falei-lhe de bondade e ele concluiu que bondoso era o senhor porteiro da escola primária. Depois, com uma firmeza masculina impressionante e que só nestas gerações jovens se viu nascer - a de confessar vulnerabilidades e assim aumentar a graça e a força - contou-me dos seus receios. Considerou-se abalado com o que tem vivido e depois do desabafo seguiu conversa com ligeireza, falando de futebol e de animais. Há um par de anos, nasceu outro Miguel, seu sobrinho, que continuo a adormecer, a alimentar, a entreter. Cópias até no gesto, um vai guiando o outro. E hoje, quando o mais velho contava do momento em que teve que pôr em causa a sua segurança para defender o amigo, fez a mesma expressão que lhe conheço desde as distantes manhãs de sábado. A mesma que o mais novo faz por outras causas e ocasiões, como uma herança que nenhum dos dois conhece. Uma certa continuidade, que se enxerga e não consegue deturpar, e que me dá alento suficiente para aguardar pacientemente pela verdadeira, a derradeira liberdade.