segunda-feira, 27 de abril de 2015

Linhas e sentidos

A linha de comboio é lugar importante para os de cá. A uns, leva para praias ou cidades maiores; a outros, deixa em estações de nome conhecido para dali partirem para outros destinos, mais longínquos e impactantes; para os que sobram, o apeadeiro que fica num lugar tão recatado e discreto, é o abrigo onde se recolhem de modo a aliviar as mágoas: uns buscam o alívio na vandalização de tudo quanto lhes aparece - há tantos anos que são tão célebres os desarranjos!; outros aproveitam o escuro e o escondido para soltarem amores reprimidos; os que restam, sem acharem consolo nestas ou noutras coisas, acabam com as mágoas acabando consigo próprios, confiando que alguém limpará os restos.
Hoje, só o lado dos que seguiam para Norte se ia enchendo aos poucos. O sol que a Sul brilhava e aquecia parecia esquecido do lado da frente, carregado de nuvens cinzentas. Os carris iam sendo enfeitados pelas ervas persistentes que alguém haveria de insistir em arrancar. Quando o comboio estava na iminência de chegar, um jovem de mochila às costas passou entre nós e com tranquilidade e ligeireza se lançou sobre a linha de comboio. Ao meu lado direito, uma senhora baixa, de cabelo curtinho e branco, dentes carcomidos pelo tempo e pelo descuido, e brincos pendendo, estacou, de respiração suspensa, aguardando o desfecho. O rapaz calcou com preguiça as pedrinhas do chão, atravessou para o lado que o levaria para o Sul, subiu o muro e enfim se sentou, a salvo de tragédias. A senhora pousou a mão na testa, amparando a sua própria aflição, olhou em volta buscando quem a ouvisse e vendo-me principiou:
- Julguei que se ia deixar ficar. Se tem algum jeito... O comboio quase a chegar e atira-se assim...
O homem que estava à nossa esquerda, a uns três metros de distância, intrometeu-se no desabafo e trocou-o por má língua: estes não fazem cá falta nenhuma. A velha começou a contar-me:
- É que já não era a primeira vez... Numa ocasião, um homem meteu-se por aí fora, a caminhar para baixo no meio da linha, e o senhor que estava comigo até se pôs aí atrás! Ele era assim: ai, que nem quero ver!, estava tão incomodado, o senhor! E eu também, mas ele - faço ideia! - até estava amarelo, coitado! É que já não era a primeira vez... E o comboio estava mesmo a passar. Mas quando o comboio ia a chegar, ele pôs-se ali para o lado, por isso ele devia morar aí para dentro e devia conhecer bem isto. E eu assim para o senhor: pode vir, senhor, ele já foi para ali para dentro, deve conhecer bem isto!. Ai, que impressão que meteu! E o senhor até ficou logo com outra cara! Pensou que ele ia... ia... pronto, não é, já não era a primeira vez. - Fez-se silêncio. A velha olhou para o rapaz, já distraído com o telemóvel e, atalhando para a memória mais recente: - Se ele fosse velho, não fazia isto. Os comboios andam muito depressa. A gente acha que eles estão longe e afinal já estão aqui. É um instante. 
Voltando aos seus afazeres, perguntou-me as horas, a saber do atraso do comboio. Nem de propósito, o esperado logo apareceu na curva, como uma serpente imparável. Separámo-nos e entrámos no comboio, cada qual para o seu destino. Da janela, ainda o rapaz, o único de nós que seguia para o lado oposto.