sexta-feira, 17 de abril de 2015

O aperto

O homem era baixo e magro, a sua pele queimada pelo sol e tinha os cabelos brancos despenteados. Enquanto esperava a sua vez de pagar, sentou-se em cima das caixas de cerâmica e dos sacos de cimento e argamassa. Como ele, mais uns quatro ou cinco. A rapariga do armazém, sozinha na sua tarefa, atrapalhava-se com a fila que ia aumentando. Aligeirou-se à força e despachava os clientes com um sorriso forçado e cansado. Desculpe a demora, obrigada e até à próxima! Quem está a seguir? Quer contribuinte na fatura? Particular ou empresa? A certa altura, no meio de tantas carrinhas estacionadas em frente ao armazém, junta-se mais uma. Sai de lá um jovem de barbas, vestido de vermelho. O homem dos cabelos brancos, sem que o seu corpo se exaltasse ou movesse, soltou um grito desmedido:
- Vai demorar muito? - Parecendo uma pergunta, era uma intimidação. O rapaz de vermelho não se ficou e o homem dos cabelos brancos gritou mais alto, ameaçando. Alguém em espera na fila apelou ao bom senso do velho. Em vão:
- Quando eu falo vocês calam-se! Metam-se na vossa vida! Tudo calado!
Um silêncio aterrador instalou-se no armazém. Sentia-se o desconforto e o receio. A rapariga da caixa atrapalhou-se mais e sentia-se-lhe o nervosismo enquanto atendia o homem. Aqui tem o seu troco, obrigada e peço desculpa pela demora. Quem está a seguir? Sorriso cansado. Dois homens velhos:
- Bom dia, menina.
- Bom dia!
- O homem estava atrapalhado. Estava com medo de não caber. - E logo o outro:
- Quando morrer cabe num sítio mais pequeno que se fode.
O ambiente descomprime, as pessoas riem e a vida continua. Próximo!