terça-feira, 26 de maio de 2015

A frente, o lado, o quente e o frio

De manhã cedo meti-me no carro e quando cheguei ao destino desabafei que tinha sabido a pouco. Apetecia-me viagem longa, horas no carro, com o zumbido da passagem rápida sobre o asfalto e entre a ventania, a moleza de nunca mais chegar. Por não ser eu a condutora, está clara a injustiça. Já dentro da freguesia, virámos à esquerda e após uns minutos de terra cultivada de um lado e de outro, chegámos onde se queria. Atirámos as tralhas ao chão, puxámos daqui e dali e a tenda lá se ergueu e prendeu na terra. Tinha acampado uma única vez, aos quinze anos, e sei que não foram custosas as duas semanas em que dormi na relva - antes pelo contrário: comi bem, passeei muito, e tomei banhos no mar como nunca antes tinha feito e como não voltei a fazer. Nessas duas semanas, a minha pele ficou mais castanha do que em qualquer outro momento, e a minha mãe, de quem herdei as cores, dizia com orgulho ao meu pai:
- Olha para ela. Assim de repente até parece mulata.
Seria difícil acreditar agora, que me desabituei do sol e que ando pálida todos os dias há muitos anos. Para alívio dos meus receios, desta vez não seriam duas semanas. Já não sabia acampar, já não recordava a amplitude térmica dos dias e das noites fora do isolamento do costume, já não me dava para pôr vestidos de pano leve e passear-me assim pelas ruas e pelo areal. Mas pus ordem nas coisas e nos pensamentos, enfiei um vestido às flores que foi costurado há mais que um verão e segui até à praia. Caminhámos devagarinho e depois de atravessarmos um pinhal demos com uma praia escondida atrás das maiores dunas que já vi. Quase sem areia, do pinhal ao mar era um salto. Não fizemos outra coisa senão escondermo-nos em praias selvagens que ainda ninguém violou, cheias de pedras que magoavam os pés, de rochas que faziam as piscinas naturais de que a poeta escrevia, de algas que perfumaram as nossas roupas e os nossos cabelos. Às sete da manhã já andávamos a pé, estourados e confusos com as temperaturas. À nossa volta, só autocaravanas encostadas a tendas grandes cheias de gente a caminhar para a reforma ou para lá dela. No penúltimo dia, um casal estrangeiro acampou ao nosso lado com um cão velho que não ligava a ninguém. A rapariga sempre de roda do telemóvel, falando uma língua que não compreendi, o rapaz querendo à força fazer amizade com os vizinhos. E uma senhora sem peneiras e sem noção dos limites que, vendo-me vaguear à procura de alguma coisa, se apressou a dar-me explicações sobre lugares e vidas:
- As casas-de-banho e os chuveiros são aqui. Também tem onde dar banho aos bebés. Aqui estão as bancas para lavar a louça e ali tem os tanques para lavar a roupa. Se bem que no campismo não se suja roupa. Já se sabe ao que se vem. Tudo muito limpinho, desinfetado, tudo! Ali tem para os deficientes - mas deus nos livre! Tanto que está fechada à chave. Esteja à vontade, tudo muito limpo. Se quiser passar roupa por água nos tanques, pode depois pendurar nas cordas, que seca num instante. Também depende das pessoas, claro, lavar no tanque. Mas também não vinham acampar, não acha? Vindo acampar já se sabe ao que se vem. Tem filhos? O que é preciso é gozar muitos anos e depois tê-los, que foi o que eu fiz. E não desconfiar do outro. Isso nunca. Um casal sem desconfianças é certinho que há de ser feliz para sempre. E olhar para a frente, e não para o lado. Isso e gozar muito a vida. Que é para os filhos não levarem por tabela. E pronto. Ali também tem um barzinho, pode ir lá sempre que quiser. Mas é isso, é aproveitar a vida. Gozar muito, não desconfiar e olhar para a frente, hein? É olhar para a frente, não é olhar para o lado. Se quiser ir ao chuveiro use este, é o meu preferido. Ai prefere esse? Também pode ser, também tem o banquinho e tudo para pôr as suas coisas. Já sabe, primeiro o quente, depois ajustar com o frio.