terça-feira, 26 de maio de 2015

As mulheres que eu conheço

As mulheres com quem trabalho são um mundo. Algumas são insuportáveis até no timbre da voz, outras são misteriosas e não as consigo desvendar, as que restam são as que dizem obscenidades deliciosas sobre o que toda a gente vê e cala quando mais ninguém está a ouvir e que me fazem rir e agradecer a todo o minuto. Estas últimas conheço melhor. São boa gente, têm uma revolta miúda a comer-lhes as entranhas, um cansaço poderoso que as abafa e verga, e uma tristeza que lhes confunde os dias e as horas. Para fazerem face a estas dores todas, riem à socapa do mal que lhes fazem e engendram defesas silenciosas que até a mim dão gosto. A maior parte delas trabalha no mesmo há dez anos e insiste:
- Achas que quero isto para futuro? É temporário. - É temporário o abuso, a exploração, a ultrapassagem de todos os limites, a injustiça, o excesso, o cansaço horroroso de se saber que tudo há de permanecer igual. Às vezes pergunto-lhes:
- O que é que gostavas de fazer com a tua vida? - Logo se perdem em devaneios tão simples e tão possíveis com um desânimo que não tem igual. - Mas porque é que não tentas?
- Mas tu achas que eu consigo? - Logo muda a expressão: - Estou sempre aqui enfiada cerca de dez horas por dia e quando chego a casa tenho que fazer tudo. Tenho a casa toda por arrumar, tenho os miúdos, tenho que lhes preparar as roupas, os lanches, sobra tudo para mim. Quando acabo já estou estourada e sem paciência para nada.
Eu, que sou desarrumada por natureza e despudor, logo lhes tento solucionar a vida:
- Faz só o essencial, o que tem mesmo que ser. O resto deixa desarrumado. Arranjas um dia por semana para pôr ordem na casa, nos outros faz qualquer coisa por ti.
- Achas?! Achas que consigo sentar-me com a casa por arrumar? Às vezes até choro com raiva. Raiva de estar fodida a fazer uma coisa que não quero mas saber que não consigo fazer de outra maneira.
E para lá andam, as insuportáveis, as misteriosas e as outras, diferentes na forma como encaram as olheiras e arrumam os cabelos, iguais na raiva, nos remorsos, no cansaço e na desorientação. Há um peso qualquer, invisível e dissimulado, que continua a moer cada mulher que eu conheço. Uma culpa persistente que, torcendo e matando em silêncio, parece ser o elo que as une a todas.