quinta-feira, 7 de maio de 2015

Defesas

Por amor, Raquel abandonou a capital para ser adotada por uma cidade com que ainda hoje embirra. Desse amor, nasceu uma bebé que faz hoje um mês. Raquel é uma mulher alta, robusta, redonda e bela no seu tamanho. A dona Cândida, que canta Tony Carreira enquanto cumpre as suas funções e que já cá está há mais de uma década, sobre tudo e todos guarda segredos e opiniões. Agora que já sou da casa, já se sente à vontade para puxar por mim. Aqui há dias dizia: essa nem dá para ver se é gravidez ou gordura. Pois tendo no meu íntimo que lhe dar razão, continuo a olhar Raquel com gosto. Por questões burocráticas, apareceu lá com a menina. As do costume fizeram roda em seu torno e comentaram as semelhanças com a mãe e com o pai. Eu, que nada tenho contra bebés, tenho dificuldade em juntar-me a esses festivais de amor; mas Raquel, enorme e formosa, e a sua bebé minúscula, fizeram-me participante. Raquel estava ruborizada e risonha, e vestia uma blusa vermelha que lhe dava um ar fresco e cumprido. A certa altura, a pequena começou  a espernear docemente e a chorar um choro frágil de mimo. E foi então que Raquel a segurou e encaixou com uma perfeição que nunca vi no seu corpo: a cabeça e o tronco pousaram no seu peito volumoso, e as pernas acomodaram-se na dobra que fazia o seu ventre. Aconchegando a cabeça pequenina nos próprios braços, aninhada como se nunca tivesse saído do corpo da mãe, a bebé sossegou e dormiu. Os braços de Raquel eram praticamente inúteis, o seu colo era berço, o berço mais honesto de todos. A última entre as do costume, despedia-se enfim - tudo de bom, gostei muito de te ver, que linda menina que tens aqui.; quando ia acariciar a face da bebé, suspendeu o movimento de um salto e justificou-se à mãe: ai, não posso, não lavei as mãos! E Raquel, serena e poderosa, respondeu o que não se ouve: faz festinhas à vontade, é da maneira que ganha defesas. A outra persistiu: não, não, assim não; vá, adeus, beijinhos, adeus. Eu ri e congratulei-a por não ser histérica. Ela riu e, numa ironia quase carinhosa, respondeu o skip lava. Depois contou da sua infância, dos pés descalços, da sujidade diária, e falou de tudo isso com uma alegria fresquinha e doce - e estou aqui como o aço!, quando ela for maior um bocadinho, levo-a para a terra dos avós para ela se enlamear toda sempre que quiser! - e no fim, tendo que ir ao gabinete do piso de cima tratar de coisas entediantes, disse com leveza à das mãos sujas, que estava rendida ao corpo frágil e recém-nascido: queres ficar com ela enquanto vou lá? Ela hesitou, mas confias?, e se ela chora?, mas acabou por ficar: não chora nada. Uma gargalhada ligeira e sossegada, e foi à sua vida em passo vagaroso. Sem defesas.