sexta-feira, 15 de maio de 2015

Estranha forma de vida

Há dias em que vivo para dentro, só com os olhos para fora, atentos ao que vai e prontos a engolir o que vier. Hoje não tive outro remédio. 
Pavilhão amplo, mesas e cadeiras pequenas para crianças que em breve deixarão de o ser, muita comida. Meia dúzia de mães em roda numa amizade cuja verdade ou origem desconheço, falavam com vaidade dos seus e das suas. Algumas, prisioneiras de arranjos desmedidos, empoleiravam-se em saltos altíssimos enquanto puxavam as calças justas para cima e acomodavam o peito vezes sem conta para que nada saltasse do decote. Uma delas, com dentes tortos e branqueados, interrompia as conversas paralelas por todo o salão, como as anfitriãs que se preocupam mais com o seu próprio entretenimento do que com o alheio. As outras não tinham sido feitas em série, segundo me pareceu. Algumas dessas, desenquadradas por falta de autoestima, encostavam-se para canto, pousadas na sua gordura, escondendo os sapatos menos vistosos por baixo das cadeiras, arrumando pratos de plástico que a ninguém estorvavam. Outras ainda, ignorando tudo isto, faziam-se prestar pelo alimento e pelo aconchego que davam à criançada com fome de uma coisa e outra. Enquanto isto, a canalha corria e voltava a correr, as meninas tão suadas como os meninos eram obrigadas a parar a cada volta porque as mães lhes cortavam caminho a pretexto de ajeitar suores e cabelos, encaixando ganchos, bandoletes e molas brilhantes que não faziam mais do que enfeitar. Havia poucos homens. Os avôs deliciavam-se até com o apetite dos miúdos, observar foi quanto lhes bastou para aguentar ou ignorar o que mais ia. Os mais novos, os que tinham casado e engravidado as mulheres confortáveis no seu desconforto, deambulavam pelo salão como se pedissem para brincar também; não podendo, contentavam-se com a filmagem e a fotografia da brincadeira. Um outro, obeso, suado e com falta de dentes, ria por todos e atirava as crianças ao ar como se fossem bonecos para diversão de todas elas.  Horas depois, a quilómetros de distância e num contexto completamente distinto, dois jovens vestidos de camponeses ofereciam vasos com flores a quem passava. Deve ter sido essa a causa da excepcional boa-disposição que ali pairava, nunca tinha visto semelhante. Também eu me pus a brincar e a rir com desconhecidos, que quase me pagam para isso. Uma dessas pessoas, mulher, para castigar o filho histérico que armava berreiro com a naturalidade com que devia rir, resolveu virá-lo de costas, enfiar-lhe a mão pelo meio das pernas e beliscar violentamente qualquer intimidade que o fez tremer de dor. Uma outra mãe contava-me:
- Tenho que ser hipócrita e falsa para sobreviver lá, claro, mas isso sempre soube. Há coisas que não me atrevo a fazer porque sei que me faziam a vida negra. - Minutos depois, a propósito do mesmo assunto, num assomo de amnésia ou incoerência: - Está perto de perfazer uma década e não tenho isto a apontar-lhes! Isto!
Isto foi acompanhado por um gesto de mãos que pretendia reduzir o espaço à mais pequena pequenez. De quem dela padece é que estou por apurar. Se sou eu, que não vejo mais do que o meu ressabiamento ou se são estes outros, que nem a si parecem ver-se.