terça-feira, 12 de maio de 2015

Limbo

Alexandra, a mais velha, foi educada para bem servir o deus do céu e o deus do seu lar. Estando bom tempo, durante o dia não podia estar dentro de casa, para não sujar. Ou brincava no pátio ou ficava na costura com as mulheres da família a aprender rendas e bordados. Só estava autorizada a usar a casa-de-banho do pátio, jamais a de sua casa. Todos os domingos ia à missa com a mãe, a avó e as tias, que se vestiam a rigor para a ocasião. Quando chegou a idade, também o sábado passou a ser dia de devoção, com as tardes passadas na catequese. Durante a semana, depois da escola, não podia fazer grande coisa. Posso ir brincar para casa da prima? Não senhor. Posso ir para a natação? Não senhor. Para a dança? Não senhor. Música? Só se for para o coro da igreja. Mais crescida qualquer coisa - mas ainda na fase de aprender a contar e a escrever em condições - a mãe deu-lhe outra ocupação: a de cuidar bem do lar. Começou pelas limpezas. Era ver a miúda a limpar o pó e a aspirar toda a casa dia sim dia não, e a limpar a cozinha após todas as refeições que a família fizesse, enquanto a mãe, sorrindo de orgulho nas suas costas, lhe dava ordens de aprimoramento. Recordo-me de, num dia de chuva, Alexandra estar na sala a comer bolachas maria - o único pecado permitido - com um tabuleiro que amparasse as migalhas.
- Já para a cozinha! - Sílvia não perdoava, disso já eu sabia, mas aquilo que eu não esperava era que Alexandra, ainda tão pequena, lhe devolvesse a tirada como uma dona de casa séria e gasta:
- Não sou eu que limpo? - E continuou a ver televisão. A televisão tinha um código secreto a que só os pais tinham acesso para se certificarem de que a menina não se conspurcava à socapa com os conteúdos dos quatro canais que tinham. Mas os pais, de parca inteligência, faziam códigos tão óbvios que a menina os descobria sempre. Então, como uma criminosa, via televisão às escondidas, sempre espreitando pela janela, e desligando tudo abruptamente sempre que houvesse sinais de perigo. Mas os pais de Alexandra tiveram um azar. Não contavam que o corpo da menina crescesse e arredondasse tão rápido, muito menos que a cabecinha o acompanhasse em desejos. E com pouco mais de dez anos, Alexandra já tinha o metro e sessenta de altura que nunca ultrapassou, o peito arrebitado e a anca larga, pronta, por dentro e por fora, a receber vida. Indo para a preparatória, achavam-lhe graça os jovens repetentes que iam entrando na vida adulta. Bonitinha, querendo ser mulher à força, ela própria os perseguia. Recordo-me de uma vez ter ido a um evento social com os pais. Ia de vestido branco e sandálias de cunha, parecia adolescente bem adiantada e orgulhava-se disso. Diziam-lhe:
- Que linda que estás! Uma mulher! - E ela esboçava sorrisos de menina comportada sob inspeção dos pais para, logo de seguida, se esgueirar até onde pudesse encontrar o empregado de mesa sozinho. Os que se apercebiam esperavam o pior, uma gravidez precoce, doenças, casamentos prematuros que a arruinassem, que a atirassem para a pobreza, até a prostituição!
- A miúda faz isto porque está revoltada, prendem-na tanto...! - Isto sempre em sussurros discretos. Mas depois de anos no limbo, aconteceu o óbvio, o equilíbrio possível entre o mundo da revolta e o da resignação: cumpre as obrigações de senhora porque passou a acreditar nelas e assim ensinará as filhas, encontrou casamento aos vinte com um homem submisso que a pudesse levar para longe, e nos tempos livres ri da sua falta de inteligência com uma histeria que me há de parecer sempre o timbre nervoso de quem vive sequestrada.