sexta-feira, 29 de maio de 2015

Os jovens de hoje em dia já não são o que eram antigamente

Tinha acabado de vir da escola quando me disseram a menina já nasceu. Olhei para o relógio que ficava em cima da porta do quarto e passava um pouco das três da tarde. Quinze anos depois, a menina cresceu. Há dias veio cá. Alta, esguia, com cabelos longos, pretos e muito lisos, a covinha no queixo, o nariz arrebitado. Tem que escolher uma área profissional. Não sabe bem, Entrou na escola profissional para ser auxiliar na área da saúde, mas o professor pede-lhe que não faça, já que tem notas para ficar no regular. Mas a escola profissional paga o passe, dá subsídio de alimentação e ainda mais uma quantia mensal que ia dar muito jeito. Por outro lado, às tantas vai para o desemprego na mesma, ainda que tenha um curso profissional. Dá-me o exemplo do irmão: um dos melhores do curso profissional de design e sem dinheiro para prosseguir estudos, vende hambúrgueres. Por isso até ficava no ensino regular. A área da saúde também não está boa em Portugal. Mas sempre ganhava algumas aptidões, e no ensino regular não.
- Mas queres seguir a área da saúde? - Olha para baixo e encolhe os ombros.
- Sei lá o que quero seguir... - Compreendo-lhe a angústia.
- O que é que gostavas muito de aprender? Não penses no desemprego.
- Não sei... - Silêncio. Talvez educadora de infância, as crianças são muito queridas. Mas também não têm emprego. Falamos de religião. A professora de história contou que a religião determina muito a vida das pessoas e ela ainda não tinha percebido isso. 
- Era mesmo interessante eu estudar isso. Até na forma de vestir dá para ver as diferenças religiosas. - Partilho do fascínio, falo mais sobre isso. Mas o desemprego... Chega a meia-noite, a hora de dormir. 
- Tem calma, sim? - Sim, sim. Sorri sem vontade nenhuma, encolhe os ombros, vai embora. Ainda não fez quinze anos. Lembro-me de a ter pequena no meu colo enquanto lhe penteava e trançava o cabelo. Já se foi o tempo em que a sua maior dor era o pente engatado numa cabeleira desordenada pelo vento.