quinta-feira, 7 de maio de 2015

Predicados

Certo dia, ria com desprezo e revirando os olhos de uns jovens que não sabiam que o Mosteiro da Batalha e o Mosteiro dos Jerónimos eram mosteiros diferentes. Fez daquilo um carnaval, contando a todos - vê só como é inadmissível, estudantes universitários dizerem uma barbaridade deste tipo! - e aproveitando caminho para se enaltecer. Deste infeliz episódio veio princípio de longas dissertações sobre o estado da nação - o asco que lhe metia ver estes jovens inúteis reclamarem do subfinanciamento do ensino superior - e não se conformava com a mediocridade dos seus pares. Privatizar o ensino é que era atitude! Na verdade, notava-se-lhe um certo orgulho, assim sempre era mais fácil destacar-se. Nesta altura, já eu me escondia pelos cantos para evitar perguntas retóricas, daquelas que ele fazia só para que eu as devolvesse, dando-lhe assim a oportunidade de se mostrar. Pouco tempo depois, cruzei-me com ele na biblioteca. Cheguei carregada de livros e com um entusiasmo raro, e ele logo se animou. Expliquei-lhe que tinha acabado de sair de uma aula de latim.
- Por acaso o latim também me dava jeito. É preciso dominar bem a gramática? É que não sou bom a gramática. 
- Não, só tens mesmo que saber o básico. Sujeito, predicado, complemento direto e indireto... Pouco mais. - Dada esta informação, esboçou um sorriso desajeitado: - Não sabes o que são estas coisas? - Não, não sabia. Faltavam complementos ao sujeito dos predicados. E esta piada fácil ainda hoje me mete dó.