segunda-feira, 22 de junho de 2015

Rudeza

Trabalho frequentemente com homens rudes, fedendo a suor e a podridão. Muitos deles serão novos, mas a vida não lhes há de ter permitido diversões por aí além, tal os estragos que a pele mostra. Muitos deles têm dedos amputados e cicatrizes. Muitos são barrigudos, mesmo que o resto do corpo faça lembrar rapazes enfezados. Sempre com maços no bolso, sacam, a cada passo, de notas de cem, duzentos e quinhentos, manchadas e com cheiro a mofo. Não têm maneiras a falar. Há colegas minhas que entontecem só de os ver chegar, queixam-se, evitam-nos, desprezam-nos. Outras há que os apreciam, porque os julgam inferiores no entendimento e assim se divertem e superiorizam. Confesso que não me importo, como também outras. Quando me querem insultar as competências, não ajeitam palavras nem alinhavam discursos. Gritam, relampejam, cospem-se pelo caminho. Mas o calo já me impede de desarrumar serenidades e, estando mal-disposta, ignoro. Estando alegre, peço-lhes que não se zanguem comigo, garanto que sou boa rapariga, explico melhor o que ficou mal entendido, agradeço no fim e não me dou a pudores quando me dizem que gostavam que me juntasse a eles para uma cervejinha. Vão à vida deles, esqueço as caras como eles esquecem a minha, e hão de vir outros como eles. Apurei a vontade de entender o outro e agradeço-lhes por isso. Sou fraca em discussões, canso-me rápido e dou razão falsa só para não aborrecer o sossego. Mas no trabalho não posso dizer o sim do despacho. Quando o não desestabiliza os ânimos, não posso ser a habitual fugitiva que se cansa como as velhas. Tenho que explicar de outra maneira, dizer melhor, dizer diferente, mesmo que esteja a dizer a mesma coisa. Não posso fazer de conta que ouço para não prolongar conversas. Afinal, apesar de ser cheia de delicadezas, de me passear limpa e perfumada, de ter o corpo inteiro, a pele lisa e o resto onde deve estar, apesar de me enquadrar e exprimir como mandam as regras, afinal talvez a rudeza esteja mais aqui, disfarçada na impaciência arrogante de quem não tem tempo para abalar o que só precisa de mais um empurrão para se desfazer e refazer.