segunda-feira, 29 de junho de 2015

Uma festa

Riam com um entusiasmo estranho, as pálpebras polvilhadas de pós coloridos e os lábios pastosos de rosa e vermelho. Uma delas, de quem tento afastar-me especialmente, tinha o peito quase totalmente descoberto e lamentava-se, rindo, de não poder tirar o casaco - que, no entanto, só lhe escondia os braços - naquelas condições. Quase todas saíram mais cedo do trabalho para se poderem preparar, umas em casa, outras ali mesmo, reunidas nas casas-de-banho. Eu e mais três fechamos tudo muito rápido porque era dia de pressa. Diziam não vais? olha, se calhar fazes bem, também não sei bem o que vou para lá fazer, mas pareciam entusiasmadas por descobrir. Depois de tudo cerrado, saí e no átrio não conseguia reconhecê-las a menos que olhasse fixamente para cada rosto. Nunca as tinha visto tão unidas, como nunca as tinha visto tão contentes. Saí de fininho e sem me despedir porque percebi que a minha voz se confundiria com o barulho da alegria. Os que lá estão há mais anos do que eu e que também preferem o lar nestas ocasiões, segredam-me as leviandades que sempre encontram bastidores e, verdade se diga, tantas vezes palco, como se naquela noite pudessem ser gritadas todas as coisas que silenciavam à força no resto dos dias. Os homens não estavam no átrio quando saí, mas bem sei que não se aprumam menos e que em força comparecem no devido lugar e à hora marcada. O que sei é que numa coisa os meus confidentes têm razão: de volta ao trabalho, é como se nada tivesse acontecido. A pele do rosto já aparece limpa, cheia de imperfeições e cansaços; às roupas já não se incumbe a função de enfeitar, apenas de proteger; os ânimos são outros, mais a virar para a impaciência e para a frustração; já não se reúnem com alegria, andando cada um para seu lado a dizer e a desdizer os demais. E no fundo de tantos deles, talvez o arrependimento escondido de que cada vez que lembram o rosto das pessoas a quem puseram anéis.