sexta-feira, 24 de julho de 2015

Encontro

Talvez por um qualquer pessimismo oculto, tento preparar-me para a eventualidade de viver em situações de carência. Invento mais do que outra coisa, verdade se diga. Em vez de comprar estantes para os meus livros, enfio-os em caixas de madeira empilhadas que antes guardavam vinho; em vez de ir ao centro comercial comprar vestidos, arranjo maneira de coser tecidos e transformá-los em sacos floridos bons de se levar à praia; em vez de deitar fora roupa velha, ponho-me a desfazer e a retalhar nem que seja para fazer panos de cozinha; os bocados de madeira e de aglomerado que deviam ir para o lixo, vão parar à despensa, pode ser que me deem jeito. A minha mãe acha que mais um bocadinho e era acumuladora, daquelas que requerem séria intervenção. Outras vezes ri-se e compara-me à minha avó, que rasgava camisas velhas do meu avô e ficava com panos de cozinha para toda a vida. Noutras ainda, elogia-me o engenho. Com o meu corpo sou igual, uso o que tenho como se não tivesse meios de fazer diferente. Acho triste que a beleza se compre. Mas isto pede teimosia, que desde a adolescência me vejo rodeada de mulheres inconformadas com isto. Sugerem-me tintas para a pele e para o cabelo, penteados de uma hora diária de arranjos, decotes e lantejoulas; quando veem que não resulta, lançam aquele que julgam ser o derradeiro argumento: garantem-me que é disso que os homens gostam. Faz-me lembrar uma ocasião em que uma mulher - mãe de uma menina - me garantiu, era eu adolescente, que mesmo que algum homem gostasse de mim apesar disto, se veria obrigado a olhar para o lado. Felizmente a vida desmentiu-as com pompa e o amor, o meu, é simples e verdadeiro. Impressiona-me muito a manipulação do corpo. Dá-me ideia que às vezes o objetivo nem é ficar bonita, é apenas ficar diferente. Eu não quero ficar diferente, gosto que me reconheçam pelos olhos e pelo tom de cabelo e pela cor da pele. Quanto mais não seja porque me posso perder. E porque quero ser encontrada.