segunda-feira, 13 de julho de 2015

Exigência

Maria é uma mulher alta, volumosa, de pele morena. Os trinta e poucos anos que conta pesaram-lhe bem, por sina ou desestrutura, e a cara não o esconde. O cabelo pintado de preto cai-lhe nos ombros, espesso e sem forma. As mãos sapudas e enrugadas  subtraem-lhe - ainda mais - delicadeza. O nariz curvado faz-me sempre lembrar as mulheres más das histórias infantis. Caminha devagar, bamboleando-se, e o corpo todo troteia. Tem um sotaque carregado e arrasta e enfatiza as últimas sílabas de cada palavra proferida. Às vezes quer pôr-se bonita. Então estica o cabelo, polvilha as pálpebras de verde, descobre-se no peito e finge que foi sem querer, rindo como uma adolescente. Com o mesmo riso de miúda se comporta se estiver alegre e em dias de assanho. Não se dá ao trabalho de ser educada quando não gosta de alguém, mesmo que reconheça que não tem motivos que justifiquem a falta de gosto e de amabilidade. Há quem não goste dela e a trate por querida apesar disso, há quem lhe chame cabra quando só eu e mais umas estão a ouvir, e há quem a despreze e ignore mesmo que esteja abaixo na hierarquia. Uma dessas que se acomodam no desprezo resguardado, uma a quem se atribui santidade paternalista, apanhou o lanço e fez-se à vida. Enumerou calmamente as injustiças e as desigualdades, falou da falta de paciência para aturar uma coisa e outra, e foi sorrindo enquanto enfrentava a besta. A besta falou: reconhecendo a sua filha-da-putice, riu, deu permissão para que a mandasse à merda, e concluiu - tens que te habituar: eu sou muito exigente