sexta-feira, 17 de julho de 2015

Flores de cemitério

Há algumas coisas que me cheiram a infância e todas elas se revelam com uma brutalidade terrível de se aguentar, dando-me ora para a ternura descomedida ora para a vontade de chorar. Quando era criança, a minha avó materna levava-me ao cemitério muitas vezes. Levava baldes com flores e, depois de chegarmos, pedia-me que os enchesse com a água que haveria de despejar sobre os tampos de mármore, cobertos de flores e de velas. Lavar o poiso da morte era natural, fotografias de gente que já não existia incrustadas nas pedras, as rezas sussurrantes que eu não entendia... Demorava sempre muito, morreu-nos tanta gente. Mas entretinham a minha infância nos dias de luto e contavam-me histórias bonitas sobre o céu e eu não perdia o contentamento. Já adulta, a minha avó pedia-me que plantasse gladíolos para enfeitar as campas. Eu plantava-os entre a árvore de magnórios e o feijão-verde, e ficava a vê-los desabrochar. Colhia-os com cuidado maternal e abraçava-os pelo caminho, não sabia o que lhes acontecia depois ou qual dos nossos é que os recebia. Regava as flores de cemitério cheia de alegria, com passarinhos em alvoroço e uma borboleta branca que certa manhã me curou. Já não encho baldes com a água de escorrer em mármore. Também já não planto gladíolos há muito tempo. Mas o cheiro das flores de cemitério que hoje, pela manhã, entrou por mim adentro, faz-me ter vontade de regressar aos pássaros e às borboletas. Mesmo que nunca saiba o que lhes acontece no fim. Nem às flores, nem aos pássaros, nem às borboletas. Nem a eles.