terça-feira, 7 de julho de 2015

Mortos

Nasceu no ano da implantação da república e tinha tanta vaidade nisso como na sua ascendência: a mãe e a avó eram senhoras que usavam chapéu. Foi deixada solteira com um filho que veria morrer por um homem que amou até ao último dos seus dias. Batiam-lhe à porta meninas de todos os lugares, pedindo-lhe que desfizesse desonras concebidas à socapa. E ela desfazia, desfez durante anos, até ter sido presa. Era uma mulher vaidosa, quase arrogante, caminhava de queixo erguido, dava prendas como dava porradas e não tinha tento na língua. Os seus doces eram do melhor que havia e ela dizia que o segredo era o carinho. Achava-se feiticeira no coração, acreditava que era tocada e dava significado a todo o pressentimento. Também gostava de vestir mortos. Quando o sino tocava, ela sabia que lhe haveriam de bater à porta. Dizem que ela tinha a coisa de vestir os mortos. Ia com gosto e sem repugnâncias, mexia-lhes na pele e falava-lhes: dá cá o braço. Garante que davam.