sexta-feira, 24 de julho de 2015

O tempo. As flores. As janelas.

Ana Maria hoje falou-me do pânico que é ver o tempo passar por ela. Comecei eu a conversa porque sei que sente, como eu, um amor proibido pelo campo. Ela, porque nasceu lá; eu, porque nasci cá. Vejo-as a ser muitas todos os dias e a serem pouco o que realmente queriam. Assusta-me. Também eu vejo o tempo a passar e nada, e também eu tenho que ser muitas coisas porque não consigo ainda de outra maneira. Mas hoje ele falou-me de um bocado de terra que fica ali a meio caminho do campo e da cidade e nem os perigos que moram ao lado me assustaram. Imaginei logo uma casinha minúscula com um alpendre para eu poder ler e beber chá de coisas esquisitas; um telhado de videiras como aquelas pelas quais eu trepava muros, tal era a cobiça ao ver as uvas frescas; rosas e gladíolos e frésias por todo o lado, muitas frutas e muitos vegetais, e árvores a toda a volta. Uma mesa boa à janela para eu escrever coisas a sério, e noutra janela a máquina de costura que herdei de bons antepassados,e noutra ainda um bocado de madeira para pôr os bolos a arrefecer. Soube-me tão bem pensar nisso. Depois cheguei a casa.