sexta-feira, 31 de julho de 2015

O tempo, o amor e a sede

Ouvi-a a dizer, meio a sorrir:
- Se achas a tua vida difícil, imagina a nossa, que temos filhos.
Fiquei a matutar nisto, não distingui vaidade de queixume. Ela sabia que, por tempo indefinido - acredita que para sempre -, não poderia ver o filho mais do que umas três ou quatro horas por dia. Lembro-me do desassossego que eu sentia quando, em criança, a minha mãe estava longe de mim por muitas horas. Confundia a voz dela com a da minha tia, corria pela casa da minha avó até à cozinha apenas para constatar os meus enganos. A minha aflição piorava na escuridão. Recordo tão bem essa saudade e a dor de um inesperado desapego que compreendo quase tudo numa criança - e o que fica no quase merece o meu esforço até ao entendimento. Quando chego a casa depois de um dia difícil, sinto um pânico a pesar no cansaço: e se eu já tivesse um bebé à minha espera todos os dias? Mas não lhe notei pânico, nem a ela nem às outras: gabam-se disso; deixam escapar a vaidade egoísta dos que se sabem amados e precisados. Creio, no entanto, que o sentimento dela deve ser ambíguo: tem vaidade no filho que escolheu pôr no mundo para todos os dias ser esperada ansiosamente; mas ao dizer
- Se achas a tua vida difícil, imagina a nossa, que temos filhos.
inclui esse filho na sua lista de dificuldades - apesar de também ter vaidade no martírio que desejaria que fosse a sua vida. Há uma competiçãozinha discreta entre elas pelo martírio: se uma tem uma dor nas costas, a outra afirma que tem nas costas e nas pernas; se uma diz que o filho é difícil, a outra garante que o seu é insuportável. No fim, sorriem umas às outras com gosto no privilégio que é viver o horror da maternidade.
Esta foi a mesma que um dia criticou uma conhecida por ter tido dois filhos num curto espaço de tempo. Argumentou:
- Ainda nem desfrutou do filho e já quer outro?
Também remoí isto durante muito tempo: o correto sentido de oportunidade é dar outro filho quando o anterior já se esgotou? E quando se esgota? Quando é que se acaba de desfrutar de alguém que se ama? Ontem uma outra, que tem um filho a passar para a segunda infância, respondeu-me sem saber: vendo o filho da primeira, pequenino e de passadas cambaleantes, a balbuciar mãe sem parar, agarrou-o com voracidade e desabafou:
- Que pequenino! Sempre a chamar pela mãe! Que inveja! Que saudades!
Talvez seja esta a ordem do amor que dão e recebem: quando secar a torrente que lhes mata a sede, essa sede que elas nem sabem explicar, outra pureza hão de esventrar até recuperarem o equilíbrio. Os filhos que encontrem de beber.