quinta-feira, 2 de julho de 2015

Remédio dos cansaços

Há dias do inferno, em que as coisas mexem do lugar sem que a gente lhes toque e em que os compromissos sofrem desonras por uma culpa que foi sem querer. Nesses dias misturo fés e bebo tudo de uma vez, com rezas a deus e às chuvas e aos sóis e às bruxas que por aí possam andar. Mal não há de fazer, julgo eu. Faço um bocadinho de tricot, a ver se o que vou laçando na lã vai deslaçando na cabeça, que as costuras e os bordados dão-me mais para os nervos se a coisa não correr bem. Não tenho tempo para estragar com estas coisas, por isso é que já não cozinho bons jantares há demasiado tempo, e se o estrago na mesma é porque me dói realmente qualquer coisa, e outra coisa qualquer fica por fazer. Nesses dias lembro-me da minha avó materna a percorrer de costas as divisões da minha casa, com uma frigideira a arder de muitas plantas, os braços desenhando no ar cruzes enquanto ela dizia versos imperceptíveis. Não a quis interromper, virei costas e fui ter com a minha mãe, perguntando baixinho o que tinha acontecido. Não tinha acontecido nada, mas queimar os maus-olhados há de ser sempre coisa boa. Ou, pelo menos, nunca há de ser coisa má. Deixei-as estar, sossegadinhas, e continuei as minhas tarefas. Passaram muitos anos, a humidade estragou as paredes da casa e lá fora cresceram plantas, insubmissas ao betão. Apetecia-me pôr plantas a arder numa frigideira e dançar com ela pela casa, recitando Eugénio de Andrade, só a ver o que acontecia. Mal não haveria de fazer.