segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Entranhas

Gostamos de água, mas neste calor que traz barulho deu-nos para virar costas e procurar refúgio nas entranhas do país. Sempre para nascente, fugindo dos limites do mundo onde tudo se põe e acaba, fomos dar com uma aridez desconhecida. Num fingido regresso ao princípio de tudo, demos por nós perdidos em escarpas e encostas impossíveis de dominar, serras que pareciam não ter fim e cumes que davam a impressão de aconchegar céu, sol e nuvens. No chão, os lobos, as víboras e os escorpiões; em nós, um medo primitivo da própria Natureza, da sua força desmedida e da imponência que sempre nos levará avanço. Num vale seco e fundo, bocados de xisto pegados uns nos outros até serem casas que alguém abandonou. O calor a arder no chão, na pedra e na pele. E nós dois, assombrados, deslumbrados com a nossa infinita vulnerabilidade.