quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O desaparecimento e os elementos

- Já viste o que seria morrer aqui? - O aqui daquele instante era uma serra esquecida e selvagem que encontrámos por acidente. Durante quilómetros, nada vimos senão uma paisagem bruta que se manteve a salvo de manipulação. Por cada curva desamparada, a gravilha a despistar levemente o nosso curso improvisado e um abismo fundo que nos acendia simultaneamente o êxtase e o pavor. O que seria morrer ali? Imaginei voo. Sim, seria voo em direção ao avesso da terra, o lugar de onde viemos. Dos quatro elementos só não me assusta o ar, por isso voltei ao meu chão a pensar nisso que seria ser largada no precipício para experimentar o voo sabendo que não haveria já mais a perder. Até da terra tenho medo, sofro de sufoco imaginário, mas a verdade é que, por qualquer síndrome de estocolmo, no instante em que ele me fez pensar na morte e no ar e no voo, pedi para voltarmos a piso seguro. Dando meia volta, seguimos até à casa emprestada e adormecemos a ler o poeta: 

E assim, sem pensar, tenho a Terra e o Céu*

*Alberto Caeiro