domingo, 9 de agosto de 2015

Oferecer dores

Um desconhecido, sem qualquer contexto, no fim de uma conversa de circunstância, olhou para mim, disse
- Faz hoje três meses que a minha mãe morreu
começou a chorar, virou costas e foi embora. Possivelmente não o voltarei a ver. Como ele, muitos outros. Ganhar a vida a falar com gente que não se conhece tem destas coisas. Lembra-me o homem que me contou, sem que eu lhe tenha perguntado, do avião em madeira que estava a construir com o sobrinho, a única recordação viva dos dois filhos que trouxe ao mundo e que viu partir aleatoriamente e cedo demais. Ou de um outro que me falou da remodelação que estava a fazer na casa do seu filho morto para que o lar vazio fosse igual ao sonhado em vida. Há mais histórias destas, todas têm em comum o facto de terem sido partilhadas sem contexto ou cumplicidade. Não lembro sequer os rostos. Podia cruzar-me com qualquer uma destas pessoas na rua que o meu coração não sofreria mais por isso. Não sei nomes, nem caras, nem coisa alguma a não ser a dor que oferecem por aí por ser demais para um só. Às vezes fico sem jeito e a desejar não ter ouvido, outras vezes comovo-me e demora a passar. O que mexe mais é entender-lhes o desamparo. Dizer
- Morreu-me
sem esperar apoio ou contrapartida. Dizê-lo como quem larga uma bomba e vira costas por saber que o resto é vão. Deixar e seguir, sem hesitações na palavra e no passo. Como explodir e espalhar qualquer dor que - também eles - não pediram e que, ainda assim, sem contexto ou circunstância, lhes foi oferecida irreversivelmente.