quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Silêncio

Quando estava a morrer, pedia-me que me sentasse à cabeceira e que lhe lesse histórias. Ia à estante da sala, escolhia um livro ou dois, sentava-me na cadeira de madeira que estava no quarto para receber visitantes e lá ficava toda a tarde. Guardo a imagem do seu corpo enorme, imóvel, na cama. Fitava o teto enquanto lia para ela. Não sei se me ouvia ou se apenas achava consolo na companhia de uma voz que não a sua, a banda sonora para histórias que ela própria criasse, em silêncio. Só parava a leitura quando ela me desse ordem para o fazer. Foi assim até ao fim, até ao dia - para mim incerto - em que a cama ficou vaga para o próximo. Agora que penso, talvez a memória mais forte que dela guardo seja a do seu silêncio. Sempre de queixo levantado, pronta a desancar nem que por palavras quem se aproximasse dos seus calos, mas calando na espera. Também me recordo de abandonar o resto da família para me juntar a ela durante os almoços. A mesa da cozinha, cheia e barulhenta, era preterida pela da sala de jantar, enorme, onde ela comia sozinha e em silêncio. Só abria a boca no fim para anunciar solenemente a sua satisfação. Antes disso, quando dormia e comia na sua casa, o ritual era outro: eu, pequena, a entrar pelas portas sempre abertas da sua casa, e ela indo vagarosamente à sala pequena onde tinha armários e a máquina de costura que hoje está no meu quarto e na qual aprendi a coser. Abria sempre a mesma porta, pegava sempre na mesma lata, e oferecia-me sempre os mesmos biscoitos secos que ainda hoje são os meus preferidos. É assim que lhe lembro o génio: viveu em clausura e liberdade com a mesma altivez, na pobreza e na fortuna com o mesmo orgulho, na vida e na morte com a mesma paz silenciosa, e assim transformou a sua partida numa subtileza rara e discreta que ainda hoje ecoa na minha cabeça em forma de perguntas sem resposta.