sábado, 5 de dezembro de 2015

O anjo

Ao contrário dos irmãos, Ângelo nasceu com pele de príncipe nórdico e cabelos dourados, caindo em cachos sobre o rosto. A ruindade dos primeiros anos foi suavizada e em pouco tempo se fez menino sensível, terno e bem-comportado. Um anjo, diziam com ternura. Com a aproximação da adolescência, porém, algo dentro de si se desordenou, e apareceu diante de mim cantando sobre violências impróprias enquanto ria, provocador. Mas a vida corre, os adultos estão ocupados, os meninos - já se sabe - são uns traquinas. Deixei-o ir, mas quando voltou tentei puxar-lhe pelas dores. Desmanchou-se pouco, mas o suficiente para sossegar. Eu falava-lhe enquanto ia laçando as malhas, com o novelo no colo. No fim da conversa, e já não pela primeira vez, começou a fazer perguntas. O que é que eu estava a fazer? Para quem era a camisola? Porque é que se usa agulhas diferentes? O que é que eu fazia com os dedos? Expliquei tudo. No fim:
- Queres que te ensine? - Então o menino sentou-se à minha beira, pôs os fios onde deviam estar e contorceu-se como pôde para laçar com perfeição. Terno como de princípio, tinha o nariz quase em cima da malha e por cada carreira fazia uma festa. Foi então que entrou na cozinha o primeiro homem, que logo se atrapalhou com a virilidade do rapaz. Isso não é para ele estar a fazer. Pouco depois, entrou o segundo homem, exímio cozinheiro e pai do anjo, e também ele sofreu com a identidade do filho. Parece que estava preocupado porque os estilistas são todos esquisitos. Mas que diria o avô deste último se desse com ele em roda dos tachos, de avental, enfeitando os pratos e a mesa? Deu a volta ao assunto, insistiu no mesmo e foi embora. Como dizia o outro, mais vale drogado que escuteiro, sempre é coisa de macho. No fim de contas, continuam sem perceber como se perdeu o anjinho.