quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Ruína

Graças ao meu sentido de justiça, não lamento a ruína das casas senhoriais ou burguesas que enchem a terra. Mas a ruína em si impressiona. Monstros deformados erguidos por todas as ruas, com silvas à volta e os vidros estilhaçados - sabe-se lá se pelo tempo, se pela intempérie ou se pela rebeldia dos que por lá passam, seja a rebeldia alimentada por sentido de justiça ou não. É uma impressão que chega a doer. Porque me esqueço por vezes da justiça e me fico pelos amores, sei lá eu quantos habitaram cada casa hoje em ruína. Bem mais perto de mim, há um pedaço de terra com casas geladas, de pedra, onde viveu gente sem grande jeito para o amor mas que ergueu cada pedra com um sacrifício que me é impossível de imaginar. Sei que muito antes de o terreno ser vendido por meia dúzia de tostões a um empreiteiro que vai erguer os monstros da nova geração, havia vacas leiteiras e batatas a rebentar da terra. Foi lá que nasceu a minha mãe, que ainda agora lamentou a morte de última hora das flores de lá de fora. Já poucos amam as suas rosas.