terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Traição

Aqui perto, puseram um pequeno rio a correr dentro de tubos e fizeram uma estrada por cima. O rio há de compreender que todos temos urgências. Somos gente. Somos importantes. Temos objetivos mensais e prémios por que lutar. Fomos promovidos a controladores de comunicação empresarial e técnicas de marketing. É importante. Os nossos filhos têm que ir para os explicadores se querem, daqui a muitos anos, entrar numa boa universidade que lhes ensine que a culpa é deles se não arranjarem trabalho como gestores de vendas de inutilidades. Temos jantares de empresa aos quais nos vendemos para sermos promovidos a diretores de recursos de manipulação, apesar de termos úlceras nervosas só de olhar para o outro lado da mesa. Sacrifícios. Não lutamos tantos anos para sermos uma porcaria. E é preciso, a vida está cara. O colégio dos miúdos é muito caro, o life coach nem se fala, e aumentou o preço das aulas de ballet e de saxofone a que os miúdos nem dão valor porque são ingratos. Não compreendem que não temos onde os deixar até às nove da noite, porque trabalhamos tanto. Pessoas ocupadas como nós, com tantos compromissos inadiáveis e imprescindíveis para o bom funcionamento do planeta, precisam de atalhos. Não, os percursos longos não chegam, não chega sequer este novo atalho que escondeu o rio. Mas é o que se arranja para já. O rio esteve muito sossegado durante muito tempo, muito manso e calado. Mas os invernos acontecem, a chuva molha, o vento é ventoso e o rio sempre correrá para o mar. Por isso a estrada rachou ao meio e agora só resta esperar pelo pior. Todos choram. Este rio é muito traiçoeiro.