quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Tudo por ti

Joana foi posta no mundo por gente louca. Andou à balda toda a infância e fizeram-na cativa durante a adolescência. A falta de amor não ajudou. A deslealdade menos. Podia ter-se tornado num trapo, lixo, bicho sem préstimo. Mas foi caminhando como pôde e chegando a lugares melhores que os anteriores. Só nos afetos nunca se desenrascou, abrindo a porta a trapos, lixo, bichos sem préstimo. Quando caía em si, ligava para muito longe, chorando, pedindo socorro à única amiga que tinha. Essa amizade, que durante a infância e por inocência havia nascido, pouco mais era que o respeito pelo afeto antigo. Joana, sempre tão ocupada com sucessivos e escusados dissabores, durante anos não teve sequer tempo para perguntar à amiga então e tu?; tinha sempre muito trabalho, a alcatifa por aspirar, o porco por levar ao forno. Mas a amiga pouco se dava a festivais, foi seguindo também ela a sua vida, encontrando amores e trabalhos e encolhendo os ombros perante o que não tinha remédio. Um dia, e pela primeira vez, a amiga pediu-lhe ajuda. Sem trabalho ou futuro de jeito em vista, pediu-lhe guarida por uns tempos. Que sim, que finalmente. Que depois de tantos anos, finalmente reunidas. Joana, há tantos meses deprimida e sem motivação para sair da cama, ali encontrou motivo de euforia. Preparou a casa como se para si própria, encheu os armários de comida, fez telefonemas, tratou de papeladas, perdeu o sono e durante semanas andou aos pulos. Só não se lembrara de que aquela mudança temporária não era sobre ela. Por isso, quando viu a amiga sorrir, pegar na carteira e sair sozinha para tratar de burocracias, sem sequer estar zangada, apenas com a naturalidade de quem se sabia apartada, Joana estremeceu. Depois de tudo o que fizera, depois de ter discutido dia e noite com o marido, um egocêntrico manso, para a poder receber? Nem um cafézinho? A casa foi abaixo. Gritaria, choradeira, intimações, portas a bater. Eu, que fiz tudo por ti! Quando já não sabia que mais dizer, chamou a mãe. A mãe, que havia escolhido outros em detrimento da filha toda a sua vida, juntou-se-lhe no escárnio e nos nervos:
- Sabes que a Joana gosta muito de ajudar os outros. E isto foi uma desilusão muito grande. Nunca mais vai ser a mesma coisa. É pena. - A amiga compreendeu, fez as malas, comprou um bilhete de autocarro e foi procurar onde dormir e onde trabalhar. Terminado o sermão, mãe e filha saíram porta fora à procura de chás que as acalmassem.