sábado, 12 de março de 2016

Os dias e os meses das mulheres (2)

Lurdes tinha pouco tino, mas só pela convivência lhe viam as faltas. Para tapar necessidades, de que só ela - e se calhar nem ela - sabia, dava o corpo por vinte escudos. Parece que não era pelo dinheiro que o fazia. Ela ia com qualquer um que lhe piscasse o olho. O dinheiro era bónus. Não saía das redondezas. Um dia, um homem chegou-se à beira da Lurdes e contou-lhe o que pretendia fazer-lhe. Contigo não vou, respondeu-lhe ela. Primeiro, ele não compreendeu a resposta e sublinhou: 
- Mas eu vou pagar.
- Mas contigo não quero. - Insistiu ela. Pois sem contratos ou promessas de fidelidade, Lurdes achou que devia continuar a honrar o instinto. Armou-se o festival, o homem discutiu, puxou-a, reclamou os seus direitos. Um polícia do lugar que, como todos os outros habitantes, conheciam a Lurdes e a sua falta de tino, chegou-se-lhes à beira. O homem, vendo-se acudido, apresentou as queixas e os lamentos:
- Ela dá o corpo a todos e a mim está a dizer que não.
Felizmente, parece que todos gostavam da Lurdes. Perdoavam-na, não tinha culpa da sina, até lhe guardavam compaixão. Por isso o homem não teve outro remédio. Deu meia volta e foi à sua vida de bolsos cheios.