terça-feira, 15 de março de 2016

Os velhotes voltam a canalha

Um adolescente usava degraus numa via pública para experimentar a sua bicicleta. Um velho, com receio que ele esmurrasse o que estava arranjado - ou que ele lhe lembrasse juventudes idas, diria eu -, diante da bicicleta se prostrou. Cruzou os braços, olhou-o de frente e desafiou: olha passa agora. O jovem protestou, o velho falou mais alto, a guerrilha prosseguiu. Um polícia que passava pelo local despertou os fulgores do velho, que, imaginando companhia e amparo, logo se apressou a encher os pulmões e a berrar de modo a que as autoridades lhe prestassem atenção e auxílio. O polícia esperou por um instante e, vendo que a tendência da discórdia era o perigo, juntou-se-lhes. O velho explicou, desordenado:
- Se ele cair vai esmurrar isto tudo! - O polícia procurou confortá-lo:
- Antes de esmurrar o chão, esmurra as canelas. - Deixou o rapaz continuar as experiências, tirou o velho dali:
- Tem razão. Falou bem. Ele vai esmurrar-se a ele primeiro. - E assim, com o conforto de que a dor alheia chegaria primeiro do que a sua, seguiu a sua vida.
Quando esta história nos estava a ser contada, ela resumiu o último retorno à infantilidade:
- Já se sabe como é: os velhotes voltam a canalha.