quinta-feira, 14 de abril de 2016

Bengala

Pouco depois do princípio da paixão, o corpo acusou o pecado e Paula fez o que mandavam os costumes: casou, nova e à pressa. A cerimónia foi planeada sem floreados, como dever burocrático. Meses depois, nasceu o primogénito que, por culpa de mágoas mal resolvidas, foi açoitado pelo pai até se fazer homem. Pouco depois veio o segundo filho, recebido com outra brandura. Finalmente, a mais nova, que nunca temeu ninguém, nem sequer o pai. Paula, que casou adolescente e adolescente há de morrer, nunca teve temperamento para o debate. Argumentar, ouvir, contra-argumentar, elevar a voz apenas até ao limite do democrático, concordar em discordar - nada. Já em pequena era de bater portas, dar murros na mesa, responder torto para desarmar o inimigo de prudência. Com o marido não foi diferente. Faltando-lhe paciência e coração para o enfrentar, pôs-se ao nível dos filhos: ria e falava à socapa, facilitava as fugas dos mais novos, fazia a festa na ausência do chefe de família e escondia nódoas com os tapetes quando ouvia a fechadura na porta. O incómodo que é a sua presença, o marido sabe-o bem. Paula não se coíbe de, como uma filha indomável, se queixar das suas regras, dos seus humores, da sua falta de alegria e vitalidade. Volta e meia, aproveita um jantar de família para dizer diante de todos, com uma rebeldia púbere: és tão chato, podias ir embora. Ninguém lhe liga. Aqui há dias, os vizinhos juntaram-se à beira do portão. O mais velho, casado há cinquenta anos, dizia merecer uma medalha por aturar a mulher há tanto tempo. Paula aproveitou para fazer rir a plateia através dos seus desejos de ver o marido pelas costas. A outra que lá estava achou mal: isso é conversa? Então, Paula pôs um tom de mulher séria e revelou os seus sentimentos:
- Uma pessoa fala mas é da boca para fora, claro. Com os filhos a ir embora, só nos resta a pessoa com quem casámos para não ficarmos sozinhos. - e finalizou, resumindo tudo na perfeição: - É como uma bengala.