terça-feira, 26 de abril de 2016

Castigo

Entraram com a criança e, num tom determinado e ríspido, anunciaram:
- Hoje não há tablet, nem telemóvel, televisão... nada! Está de castigo, que é para ele aprender a não se portar mal. - Beijaram, zangados, a face do miúdo, entregaram-no à avó e foram trabalhar. A avó, encaminhando o pequeno Pedro para o interior da casa, ia perguntando com ternura: que fizeste para a mãe e o pai estarem zangados? A resposta já não ouvi. 
Pedro nasceu sereno e amoroso. Dormia bem, acordava a sorrir e a pedir mimo. Sossego e carinho era quanto bastava para o acalmar em momentos mais difíceis. Como tantos outros pais, os seus também achavam graça à sua capacidade de imitar o que via. Quando o pai irritava a mãe, a mãe, com o menino no colo, dizia dá um soco ao pai, cerrava-lhe o punho e ela própria levava a pequena mão à cara do inimigo: pumba, que é para o pai se portar bem. O pai ria, a mãe ria, o bebé primeiro olhava confuso e depois juntava-se ao riso. O pai fazia brincadeiras semelhantes quando era a sua vez de segurar o filho. Dá tau-tau na mãe, para ela aprender. De tão inofensivo, os três riam e repetiam o momento. Quando o pequeno começou a dar mais quedas do que passos, os pais ensinaram-no a defender-se do que o magoava: caíste ao chão? Bate no chão, que foi mau para ti. Trilhaste a mão na gaveta? Dá um murro na gaveta. É certo que alivia. Quando via um insecto, os pais gritavam mata o bicho, para não te fazer mal. Quando começou a querer ver bonecos em vez das séries da televisão por cabo, os pais puseram-lhe uma televisão no quarto para todos poderem desfrutar sossegados das maravilhas que os santos ecrãs transmitem. Não gostavam que o filho se sujasse ou andasse descalço, ou que passasse muito tempo ao ar livre porque o sol está muito perigoso. Quando Pedro fez quatro anos, já tinha um tablet, uma playstation e uma PSP, um telemóvel e uma televisão. Um luxo. Também já tinha mau feitio. Quando o contrariavam, levantava a mão e punha uma expressão ameaçadora, hábito que demorou muito tempo a reverter mas que não anulou o instinto. Depois passou a atirar-se para o chão, gritando desesperadamente, incapaz de conter a frustração de não se poder defender e de não poder levar a sua avante. Às vezes, quem cuidava dele limitava-se a esperar que passasse. Outras vezes, segurava-o nos braços procurando consolar as suas desilusões. Nas vezes restantes, faltando paciência e compaixão, usava a chamada palmadinha pedagógica. Ou os castigos que, naquele dia, os pais lhe impuseram. Achava eu que removerem os calmantes tecnológicos era um presente e era afinal um castigo. Dizem-me que não sei o que digo ou o que penso porque não sou mãe. Parece que não tenho autoridade. Respondo que de facto pouco ou nada sei. E também é verdade que são sempre mais as perguntas do que as respostas que tenho. Então, oxalá alguém me respondesse, com a misericórdia que me devem pela minha ignorância, pelo menos a esta: quando é que devolver uma criança à infância se terá tornado na maior das punições? Silêncio.