quinta-feira, 21 de abril de 2016

Como generalizar

Aproveitando boleia e boa companhia, entrei na carrinha de manhã cedo e, depois de dezenas de quilómetros, escolhi a beira de um rio discreto para adiantar uma camisola. É a vantagem de ter em mãos um trabalho portátil. Sentei-me no primeiro degrau, pus a mochila e a termos ao meu lado, o novelo num saco de pano que pousei no chão, e só para contemplar a paisagem ia levantando os olhos. Durante as horas que se seguiram, dezenas de pessoas passaram por mim para o exercício físico matinal. Ainda assim, conseguia escutar nitidamente o balanço das águas do rio e os avisos das gaivotas. Quando o comboio passava, ao longe, já eu sabia que passaria. O som não engana. É um luxo, isto de haver sítios em que ainda consigamos ouvir. Ao final da manhã, um grupo de adolescentes estridentes aproxima-se do rio. Não eram portugueses e percebi depois que vinham numa excursão. Espalharam-se pelas escadas, à minha volta, falaram alto, riram, tiraram selfies com uma alegria imprevista e em dez minutos seguiram para outra paragem. Durante esse bocado, mal levantei os olhos. Afinal, pouco ouvia e menos ainda conseguia enxergar. 
Quando chegou a hora de regressar a casa, entrei na carrinha e contei o episódio. Ele sorriu e disse:
- Se calhar, quando voltarem a casa, vão dizer que os portugueses tricotam muito nos espaços públicos.