sexta-feira, 22 de abril de 2016

O guardador

Há muitos anos, encontrei um livro pequenino e velho com o nome da minha mãe manuscrito a tinta azul e com um apontamento a lápis: 35$00. Era o Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, do Alves Redol. Li-o cheia de gosto. Se tivesse que descrever o livro numa palavra, escolheria água. Não percebo nada de crítica literária, falo com os sentidos. 

Se quer arrancar à terra seara que se veja, o lavrador não pode marcar preço para canseiras e cuidados. Tudo começa nos projectos, nas insónias prolongadas a que se entrega, como nos tempos em que os generais resolviam batalhas. E com os olhos que devassam tudo, e com pés que pisam a leira para lhe lembrar: «cá estou mais um ano, cá estamos, pago em suor tudo o que me puderes dar...» 

O que têm de bom as palavras, diria eu, é que as entrelinhas são tantas quantas as vezes que se leia. E tal como a água mata a sede, cada pedaço da história ilumina uma dor diferente ou uma alegria que ainda não se conhecia. Só temos que saber guardar.