quinta-feira, 21 de abril de 2016

O lugar certo

Disseram-me há uns dias que a escola, com todos os seus problemas, é o lugar certo para as crianças. Quem terá decidido que é certo aprender na escola, e não no campo, as partes de uma planta? Ou que é certo estudar geografia e geologia fechado numa sala? Quem sentenciou que o que está certo é a criança aprender história num quadro de lousa e não nas ruas e nas ruínas e nos museus? Quem decide o que está certo para todos e com que ferramentas e autoridade? Porque é que o lugar certo para as crianças não é o mundo inteiro ou o que elas quiserem? Será errado ensinar uma criança a ler com a poesia de Caeiro, à sombra de uma árvore ou com os pés enterrados na areia? Será errado levar uma criança para o cimo de uma serra para lhe contar que pedras são aquelas, o que nos diz o sol e qual o curso do rio? Que crime é esse de não interromper a brincadeira com o som de uma campainha estridente e programada para os dez minutos? Podia responder a todas as perguntas com silêncio e vergonha. Talvez esse lugar certo seja aquele onde, por pouco fazermos, pouco temos a recear. Um lugar onde perguntar seja uma ofensa, uma afronta que só a brutalidade dos tiranos possa conter.