quinta-feira, 7 de abril de 2016

O monstro

Filipe era alegre, risonho e brincalhão. Partilhava a casa com colegas e com o seu grande amigo, também ele Filipe. Os pais do amigo iam lá visitar o filho muitas vezes, e em todas as ocasiões o convidavam a sentar-se à mesa e a juntar-se aos passeios. Gostavam muito dele, os pais do amigo. Bom rapaz, muito simpático e bem-disposto, simples, e ainda por cima - que engraçado! - tinham o mesmo nome. Um dia, Filipe apaixonou-se e, não conseguindo digerir bem as saudades, passou a fazer do seu pequeno quarto um lar para dois. Passava os dias com a namorada e com o seu amigo, comiam juntos, saíam juntos e, quando Filipe tinha trabalho fora de horas, para que a namorada não ficasse só e rabugenta, encomendava a companhia do amigo. Leva-a a comer fora ou a passear, só para ela não estar aí sozinha e aborrecida. Julgando simpático juntar a mulher que amava com o homem que tinha como irmão, a situação foi-se repetindo. Pois se a sua namorada de leal pouco tinha, o amigo não lhe ficava atrás. A namorada foi procurando no cunhado emprestado tudo o que lhe faltava, aproveitando para confidenciar as falhas do homem que escolhera. O amigo, não tendo jeito para rejeitar carícias ao ego, não se coibia de lhe receber desejos, confissões e demonstrações de afeto. Quando se juntavam os três, o ambiente passou a ser de intriga e raiva. A namorada, insatisfeita e insaciada, sempre tecendo críticas e humilhações ao homem que a abraçava todas as noites; o amigo sempre enciumado e provocador atirando chagas à fogueira; Filipe sempre com uma raiva crescente, ainda não sabia bem de quê. Após muita novela, o amigo decidiu fazer as malas e ir para bem longe, numa reação a qualquer despeito difícil de decifrar. Filipe e a namorada ficaram no mesmo sítio. Passaram-se anos. Filipe, o rapaz simpático e ingénuo, passou a resolver os problemas com a força e ameaças de suicídio. A namorada ainda liga ao amigo chorando a sua sina. O amigo enche o peito, dá-lhe consolo e conta a todos como louva a sua decisão atempada de ter fugido de um homem que afinal é um monstro. Parece que o rapaz tem a doença do pai. O pai também não era bom da cabeça.