quinta-feira, 7 de abril de 2016

Posse

Mariazinha, a caseira do senhor António, ficou danada quando o senhorio casou com Filipa e não com a sua sogra. A esperança, durante tanto tempo cultivada, de ver o seu marido herdeiro daquele bocado de terra desvaneceu-se num instante. Remoeu isso até ao fim dos seus dias, bufando a cada passo: isto podia ser tudo meu. A sua casa ficava ao lado da oficina onde António trabalhava a madeira e fazia o vinho, e também por isso ela bufava: sempre no meu pátio, sempre a passar na minha porta. O cão de Mariazinha estragava os canteiros de flores de Filipa e tanta era a raiva que disso se fez motivo de guerra. Então Mariazinha incumbiu o esposo Henrique de erguer paredes de cimento no lugar onde António fazia os seus trabalhos. Seria uma casota. Ou uma provocação, pensou António, que não se demorou a desfazer as pequenas paredes mal começaram a ser erguidas. Mariazinha saiu disparada pela cozinha e começou aos gritos, António gritou mais alto. Filipa, ouvindo, desceu da sua casa e juntou-se à festa. Henrique, vendo naquela blasfémia uma urgência, nem vestiu as calças antes de vir impor a sua verdade. Os quatro gritando, um armado, outro de cuecas, as duas desalinhadas. Não mais se falaram. Mariazinha, má de feitio e de coração, remoendo as suas derrotas, até ao fim da vida procurou razões para fazer valer os seus direitos. Quando os netos de António e Filipa herdaram tudo, Mariazinha e Henrique ainda cá estavam, ela revoltada por ter que prestar contas a gente que viu nascer. Quando os bisnetos de António e Filipa começaram a nascer e a fazer barulho, novos pretextos lhe apareceram. Todos os dias berrava, fazia queixas e impunha proibições. Quando os bisnetos cresceram e começaram a pegar em bicicletas e bolas de futebol e em tudo o que mais lhes parecesse bom de brincar, ela redobrou o queixume e a autoridade. E os bisnetos, se já tinham idade para fazer tamanha barulheira, também já tinham tino para lhe dar resposta. E davam, davam sempre resposta. Pediam argumentos: porque é que não podemos andar de bicicleta? porque é que não podemos falar alto às três da tarde? porque é que não podemos passar neste caminho se este caminho não é seu? E ela resumia, tudo muito mal amanhado, e ia dar tudo ao mesmo: porque eu não quero. Felizmente ninguém parou de brincar por causa dela. Muitos anos passaram. Mariazinha morreu. Henrique, homem preguiçoso e marido distante e indiferente, cortou a água e a luz, tirou os móveis da casa, trancou-a e saiu para não mais voltar. Todos os meses aparece para dar o conto mensal que deve pela chave que ainda guarda no bolso. Mas agora os bisnetos cresceram. Querem as casas desocupadas, querem limpar as manchas de humidade, querem pôr azulejos, querem um chão bonito, querem cortinas novas, querem fogões e sofás, querem desligar a televisão nas horas das notícias e ter filhos. Pediram-lhe com jeito pela chave. Henrique levanta o queixo e fala sem aprumos: não entrego a chave. Em nome da paz, ainda o tratam com paciência. Eu, que não sou tão generosa, diria que algures no universo se há de ouvir uma voz a bufar: isto devia ser tudo meu.