sexta-feira, 15 de abril de 2016

Tempo

À mesa, como amigos, esmiúçam pequenos embaraços com fórmulas de humor fácil, como se fossem as vítimas eleitas de um deus espirituoso que só a eles tem como alvo. No fim de cada história, dissertam acerca da evidente universalidade desses imprevistos, pequenas vergonhas, humilhações traumáticas que deixam de o ser se forem transformadas em piadas. Manifestam um orgulho mal disfarçado por se considerarem capazes de unir toda a humanidade por meio da troça, como se a troça do banal fosse novidade, um novo movimento - por eles descoberto - capaz de juntar inimigos e suspender guerras. Um quer saber de onde vem a genialidade do outro, buscam razões, destinos que enfim se cumpram, desembocam na ascendência internacional e cheia de homens brilhantes cuja diversidade foi convergir, séculos depois, nesse receptáculo de inteligência refinada. Resumem a herança intelectual, reparam nos traços de personalidade que pertencem a cada pátria, rindo com condescendência quando chega a hora de atribuir bandeira a cada defeito. Vão então vasculhar a infância, todos sabem que os iluminados já nascem especiais, já elevados e à frente do seu tempo até no momento em que são paridos. Dão uma guinada - como é de bem - para o panorama político que serve de palco à epopeia que é a vida de cada um. Os jovens dessa altura são diferentes de todos os outros: mais vivos, mais sábios, mais vitais, mais corajosos. Também enfrentavam mais perigos, nem a pancadaria e a tortura os calavam, subvertiam até a dormir. Procuram afinidades, memórias que coincidam no tempo, e é claro que louvam esse tempo. Esse tempo que parece ser encerrado, homogéneo, povoado apenas de seres irrepetíveis e em tudo superiores. Contrapõem com a atualidade, os jovens de hoje em dia, a apatia de hoje em dia, as manias de hoje em dia, as modas de hoje em dia, os políticos de hoje em dia. Lamento que não haja quem lhes segrede, baixinho para não envergonhar, que ainda não morreram. Que enquanto respirarem, cada segundo será ainda o seu tempo, cada tragédia lhes pertencerá também. Daqui a quarenta anos, talvez cá estejam ainda. Quando lhes perguntarem, em horário nobre, o que têm a dizer de si próprios e do que fizeram, hão de incluir a segunda metade da vida também, a que hoje ainda está por vir. Se eu ainda cá estiver, hei de ter gosto em saber o que terão eles a dizer sobre aquele tempo, aquele que o relógio de hoje marca e que tantos vivos lamentam até ao limite do cansaço.