sábado, 23 de abril de 2016

Uma grande família

Numa dessas multinacionais cujos donos milionários ninguém conhece, os chefes recebiam os novatos com muita emoção: bem-vindos a esta grande família. À primeira vista até parecia uma coisa diferente, os trabalhadores todos cheios de beijinhos e outras doçuras para distribuir, uma preocupação desmedida pelas lágrimas alheias, muitas festas para fortalecer o espírito de equipa. Neste lugar, marcava-se reuniões às sete da manhã para que ninguém tivesse que parar de trabalhar para ouvir os chefes. Eram reuniões extraordinárias: debatia-se durante meia hora como personalizar os cacifos e todos participavam com alegria; fazia-se jogos de mímica e outros que tais para fortalecer os laços de união; anunciava-se os lucros astronómicos da empresa e incluía-se no discurso o lugar-comum e é tudo graças a vocês, muito obrigado, equipa para que os empregados se distraíssem da exploração. Resultava tudo muito bem. Os que ficavam a trabalhar horas extra de graça faziam-no de peito cheio, imbuídos de um sentido de missão. Para dar mais lucro aos patrões que nem conheciam, encarregavam-se de distribuir eles próprios, nas suas poucas horas livres, as publicidades da empresa. Ora para haver tanta devoção numa coisa, outra coisa qualquer tem que ficar por fazer. Por isso, quando os relógios biológicos despertavam, arranjavam colegas que dessem bons cônjuges e por ali se ficavam. Tinham bebés que mal viam e usavam as suas fotografias para personalizar os cacifos. Indo de férias, descarregavam todas as fotografias para o facebook, não fosse alguém achar que estavam a desperdiçar a vida. Nas festas anuais em que todos se juntavam num bar alugado por uma noite, às vezes as coisas descarrilavam. Mas não era por mal, claro, afinal estava escuro, o álcool é tramado e era dia de festa. Uma das chefes esteve lá mais de uma década. Durante esse tempo, novos países foram reconhecidos, outros foram desfeitos por guerras, assinou-se tratados e convenções, deu-se a grande recessão e a revolução digital. Tantos morreram, tantos nasceram. Tantos se fizeram gente. O mundo não pára. Durante esse tempo, todos os dias dessa mulher foram iguais. Ia trabalhar enfunada e pouco fazia, além de infernizar a vida dos súbditos. Um dia, ficou doente. Primeiro pensou-se que era uma coisita de nada. Mudou de ideias quando se viu presa a uma cama de hospital. Os pais da grande família, que bajulavam a ralé para que se fizesse pouco barulho, não gostaram. Puseram-na na rua - a ela, que tão bem instalada estava, tão segura do seu posto, tão alegre com a vida precária dos seus lacaios. Ela, que durante tantos anos se devotou àquele projeto como se dele tirasse verdadeiro proveito. Eu ficaria assustada com o aviso, se fizesse parte do clã. Mas parece que ninguém ficou. Porque no momento em que os tiranos a puseram de parte, todos se colocaram no lado dos invencíveis, não fosse o diabo tecê-las. E o tempo passa. Tanto continua a acontecer. A grande família vai patinando. Resta saber quando cairá.