quarta-feira, 4 de maio de 2016

Ingenuidade e desinteresse

Um homem de meia-idade recorda a sua juventude: o ultramar, a ditadura, a guerra, o 25 de abril, a descolonização. Apercebeu-se cedo da injustiça, do ódio, das falhas da humanidade. Conta o que via, ouvia e pensava nesse tempo. Depois busca o exemplo do filho, um adolescente, e revela o choque que é ver a sua ingenuidade política; mais: deteta-lhe um perigoso desinteresse. Pegando no caso do filho e no seu, alarga e generaliza: não é só ele, é toda a geração dele que, ao contrário da minha... Espanta-me. O adolescente foi enviado para a escola aos três ou quatro anos, com horas monitorizadas para rir e brincar e com as tarefas de manutenção de diversão e criatividade já pré-definidas por outros. Durante os dez anos seguintes, fecharam-no em salas cheias de gente da sua idade e proibiram-nos de falar, de estar em pé, de fazer muitas perguntas e de contestar o que lhes transmitiam. Sem olharem a circunstâncias, a todos avaliaram do mesmo modo oco e mecânico, avaliando capacidade de memorização quando julgavam avaliar inteligência e sabedoria. No fim de cada dia, colocaram-no diante de um ecrã que centenas de pessoas transformam num púlpito que lhes permite determinar sentenças favoráveis a quem tem pouco interesse que isto mude. E o pai - o que poderia ele fazer? - senta-se, recosta-se e fala - do seu filho, que ainda está longe de ser homem - como se fosse um ser passivo, distante, que nada pode senão assistir. Digo que sim a tudo. Sim: ingenuidade política. Sim: perigoso desinteresse.